Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Vícios e costumes

Vitor Sapienza*

É antigo o nosso hábito de fechar as portas depois que elas foram arrombadas. E isso se dá em vários segmentos, seja ele no comércio de bebidas, no setor de tabaco ou mesmo no trânsito de veículos. Depois que a situação atinge o estágio da calamidade é que começamos a nos mexer, correndo para corrigir ou minimizar os prejuízos.

Houve um tempo, não muito distante, que uma marca de cigarros vendia a imagem de um vaqueiro, homem rude, sempre em convívio com a pradaria, expondo o cigarro preferido. Foi um dos incentivadores mais eficazes no consumo de tabaco até que fosse retirado de circulação. Desapareceu para sempre, vítima do câncer provocado pela nicotina que ele tanto difundiu. E aqui, entre nós, depois de tantos estragos, as embalagens de cigarro passaram a trazer a mensagem tênue sobre os riscos ali contidos.

Estou citando isso para lembrar outro costume, também antigo. Na nossa infância estávamos acostumados a colecionar figurinhas. Nos intervalos das aulas, era comum a formação de uma “rodinha” de estudantes disputando o conhecido bafo-bafo, onde as figurinhas eram amontoadas; os jogadores, um de cada vez, batia a mão em formato de concha, tentando virar as figurinhas. E cada vez que conseguia, passava a ser o novo dono.

A prática foi muito condenada porque os educadores diziam que os alunos perdiam tempo, quando deveriam estar estudando. Somado a isso, diziam que eles estavam utilizando o dinheiro que os pais entregavam aos filhos para a compra de lanches. E isso fez com que as figurinhas, que eram vendidas embrulhadas em balas, passassem a conter a advertência contra essa prática.

Agora, tantas décadas depois, vemos a televisão massificando uma campanha para incentivar a venda de figurinhas com atletas que poderão estar na próxima Copa do Mundo; algo bem diferente do que ocorria no passado, quando o colecionador comprava uma bala, que vinha acompanhada da figurinha, e assim que completasse o álbum recebia um brinde. Os nossos colecionadores modernos são obrigados a aceitar o jogo cujo regulamento tem apenas um beneficiário, no caso: a empresa que imprime as figurinhas.

Sem a certeza de que terão em mãos todo o material necessário para completar o álbum, os jovens de hoje são submetidos às regras monolaterais do jogo;  finda a competição, terão a certeza de que investiram muito acima do que seria normal e, para frustração de todos, ficarão à mercê das tais “figurinhas carimbadas”, de difícil obtenção, mas cuja procura irá rechear os bolsos dos editores.

Talvez o leitor ache isso tudo algo normal, resultado da nossa paixão pelo esporte. E ele pode até ter um pouco de razão, afinal sempre ouvimos dizer que este é o país do futebol. Talvez por isso, ou mesmo por nossa ingenuidade, sempre somos incentivados a aceitar aquilo que os meios de comunicação tentam nos impingir. E essa prática se estende desde a má qualidade dos espetáculos que o esporte nos oferece, até a violência que vai muito além dos estádios; do desrespeito com o torcedor à ignorância de seus direitos como consumidor. Nesse somatório de ignorância, ingenuidade e esperteza de alguns, vamos sendo tratados como incautos, e pagando as consequências disso.

*Vitor Sapienza, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado - www.vitorsapienza.com.br

Tags: aberta, Artigo, JB, Sociedade, texto

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