Jornal do Brasil

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

O tempo e os ovos

Wanda Camargo*

Ao contrário do que parece ao senso comum, os produtos industrializados estão cada vez mais acessíveis. As novas tecnologias e a globalização do mercado deram enormes ganhos de escala à produção. Isto e a expansão da oferta de crédito puseram uma variedade imensa de bens de consumo, duráveis e não duráveis, ao alcance de grande parte dos cidadãos.

A maioria de nós conhece e concorda com as restrições feitas ao consumismo desenfreado e como fim em si. Da mesma forma, são conhecidos os perigos do endividamento irresponsável – mas é fora desses extremos que escolas trabalham ao tratar deste tema. Datas celebradas em comunidade marcam a passagem do tempo de forma especial – delas, retiramos tópicos como solidariedade, igualdade de gênero, sustentabilidade e outros, essenciais na obtenção do conhecimento de si e do mundo.

Neste momento em que pais e familiares lotam lojas e supermercados em busca de ovos de páscoa para presentear entes queridos, são muitas as pessoas que, talvez pela primeira vez na vida, estão tendo possibilidade de participar dessa tradição que, embora tenha se dissociado de seu significado original, mantém algo do que sempre representou através dos tempos: a comemoração da vida renovada. 

Revigorar esta data naquilo que oferece como oportunidade de reflexão sobre o reinício do ciclo vital, mesmo àqueles ainda muito jovens, fortalece os laços das crianças e jovens com o universo daqueles com quem convivem. Amam-se filhos, sobrinhos, netos, alunos – mas não podemos lhes dar esse amor. Amor não é algo que se dê – amor se sente e compartilha. Como os amamos, oferecemos carinho, proteção, educação. Por amar, alimentamos, cuidamos, damos presentes e, exatamente por amor, talvez junto aos presentes, devamos dar-lhes tempo.

Com os ovos de chocolate, a disponibilidade para abri-los juntos e até compartilhar um pedacinho. Com o jogo virtual, aquela meia hora indispensável para jogar a primeira partida. Com a bola de futebol, o prazer de dividir alguns dribles. Com o abraço, a conversa necessária para saber como está esse jovem, o que faz e o que pensa. 

Sem esta ajuda, o trabalho do professor será difícil ou mesmo impossível. Aprendizagem não é apenas cognitiva - muito de emocional está envolvido na tarefa. Entendemos que uma pessoa faminta ou desagasalhada não está apta para aprender, mas temos muita dificuldade em reconhecer quanto o sentimento de abandono constituiu empecilho ao saber. Proteção não se relaciona apenas com aspectos físicos, mas, principalmente, sensitivos – facilita o processo educacional, retirando o medo do novo, do desconhecido.

Aprender implica em resiliência, resistência diante do erro, para recomeçar sempre – pois nunca se sabe o suficiente; é projeto de uma vida inteira, com ponto de partida no auxílio de todos com os quais se convive.

Tempo. Intangível e implacável; tão mais precioso quanto mais raro, e cada vez mais escasso em nossa vida. O trânsito não flui, demoramos cada vez mais para fazer o mesmo percurso. As exigências do trabalho, os compromissos, a vida social, os dias – não bastam para o tanto que precisam conter. E é da maior importância que contenham os que amamos. 

* Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).

Tags: aberta, Artigo, JB, Sociedade, texto

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