Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Espaço aberto

Tarcisio Padilha Junior*

O lugar da tecnologia — no sentido antropológico — é tão crucial nas ciências humanas e sociais hoje que se torna duvidosa a possibilidade de se constituir uma psicologia ou uma sociologia que não retorne constantemente à dimensão tecnológica do ato humano, quer seja ele individual ou coletivo.

A tecnologia aparece então como a ciência humana das técnicas, ou seja, adquire um sentido bem diferente daquele que o americanismo adota como equivalente de dispositivos maquinais. Assim, a técnica é um ato sobre o real, iniciado a partir de uma cultura e sancionado pelo julgamento do outro.

Não há coletivo que não seja estabelecido sobre a dinâmica da confiança entre seus membros. Estimar, avaliar ou caracterizar o fator humano numa situação de trabalho é necessariamente fazer referência de modo explícito às relações de confiança entre os diversos membros do coletivo do trabalho.

A confiança não se fundamenta nas competências psicológicas mas nas competências éticas. Está fundamentalmente ligada à efetividade de uma congruência no tempo, entre a palavra dada e o comportamento que a segue. A confiança decorre do respeito à promessa, no dizer de Paul Ricoeur.

A confiança, uma das condições da discussão, não é, todavia, suficiente. É preciso ainda existir um espaço aberto onde podem ser formuladas livremente e sobretudo publicamente opiniões eventualmente contraditórias para tomada de decisões sobre questões que interessam ao futuro do serviço.

Os argumentos da discussão não são apenas de ordem técnica, são também relativos aos desejos, às crenças e sobretudo às escolhas éticas dos indivíduos que trabalham e intervêm no espaço de discussão. A natureza dessas ideias ou desses pontos de vista decorre da opinião, que é apenas uma opinião estabelecida sobre as considerações que não competem a um único conhecimento científico.

Esse espaço de discussão aberto à deliberação coletiva é o que permite, no melhor dos casos, alcançar um consenso. Em outros casos, a discussão não permite chegar a um consenso, o que não impede que decisões racionais não possam ser tomadas. Com efeito, as decisões que resultam de uma deliberação não são comparáveis às decisões sem deliberação coletiva, não têm as mesmas consequências.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Sociedade

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