Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O ano escolar e a Copa do Mundo

Como a escola pode tornar um grande evento esportivo em um grande motivador da aprendizagem

Miriam Bevilacqua*

Desde o início do ano passado, as escolas por todo Brasil têm discutido o calendário escolar em virtude da Copa do Mundo. Entretanto, passada essa fase, uma vez que os calendários de 2014 de cada colégio já estão prontos e divulgados, e o ano letivo já corre a pleno vapor, é necessário pensar a Copa do Mundo no Brasil como uma oportunidade de aprendizado para os nossos alunos. Como? As possibilidades são inmeras.

Mais que um tema transversal que pode abarcar várias disciplinas escolares, a Copa aproxima o cotidiano que estará em todos os meios de comunicação ao estudo teórico tantas vezes distante do alunado. Com a proximidade do torneio, as discussões ganham as casas, os escritórios, e por que não as escolas?

A brazuca, a bola oficial do torneio, por exemplo, poderá sair rolando do gramado diretamente para uma aula de química. Qual o material por ela utilizado? Como se chegou a esse material? Por que 437 gramas, nem mais nem menos? Ao que os nossos professores de física podem colaborar ajudando os alunos a pensar e calcular trajetórias da brazuca, força do chute dos jogadores e tantos outros aspectos físicos que uma atividade como o futebol proporciona.

E, se não existe futebol sem chute, qual professor de biologia não ficaria honrado de poder explicar os músculos em ação da perna do Neymar, comentando aquele gol espetacular que, mesmo sem fazer um exercício de futurologia, acreditamos que virá para a alegria geral da nação verde-amarela?

A distante e de nome estranho Bósnia-Herzegovina, cuja seleção tem presença confirmada nos estádios brasileiros, com certeza tem muito a ensinar aos nossos alunos sobre a região dos Bálcãs. Os professores de geografia vão finalmente poder aproximar as fronteiras longínquas e muitas vezes geladas de tantos países ao ensolarado Brasil.

A temida matemática ficará muito mais simpática aos olhares escolares se fizer o cálculo da probabilidade de o Brasil ser campeão, ou vice, pelo menos. O cálculo do custo da construção de um estádio e da renda que cada jogo proporcionará ajudará nossos jovens a entender o tempo que será necessário para se pagar uma construção desse porte. Por que também não se ensinar juros tomando por base o salário astronômico de um jogador de futebol em qualquer aplicação financeira? As oportunidades de ensinar matemática a partir da Copa do Mundo são quase tão infinitas como são os próprios números.

Enfim, não há componente curricular que não possa ganhar outro brilho com algo que é tão caro ao brasileiro como o futebol, sempre nossa paixão nacional.

Consciência crítica e valores  

Se acontecem tantas manifestações em várias cidades brasileiras justamente contra a Copa, em que contexto elas aparecem? Que Brasil é esse que gasta milhões em uma Copa do Mundo de Futebol, mas tem deficiências gravíssimas na saúde, na educação e em tantas outras áreas? Uma aula interdisciplinar de história, sociologia, filosofia poderia discutir profundamente a questão.

E a Copa do Mundo pode ser apenas o pontapé inicial. Aulas de atualidades ou pelo menos as atualidades devem permear, sempre que possível, o trabalho de sala de aula. Temos que criar o hábito de discutir o jornal impresso ou virtual em sala de aula semanalmente. A escola não pode ser uma ilha isolada do mundo ensinando conteúdos que não se renovam. Os componentes curriculares não podem ser caixas estanques que não conversam entre si e, principalmente, não conversam com a realidade que os cerca.

O docente tem a obrigação de buscar oportunidades de sempre relacionar o conteúdo de sua disciplina ao mundo que está à volta do aluno e de todos nós. Com certeza, fazendo relações relevantes, o aluno não mais perguntará em sala de aula “Para que eu aprendo isso?.

Se somos contra ou a favor da Copa do Mundo em nosso país, é uma discussão que deveria ter sido feita previamente com a participação da sociedade. Não foi isso o que aconteceu. E não adianta, neste momento, querermos impedir um evento mundial de proporções e implicações gigantescas. O que resta, principalmente para nós, educadores, é explorar todos os aspectos possíveis de serem abordados em sala de aula e fazermos a nossa parte. Se a Copa do Mundo trará um grande prejuízo aos cofres públicos e à sociedade em geral, pelo menos nossos alunos têm de sair ganhando, e isso não depende de nenhum juiz e pode ser feito em muito mais do que 90 minutos.

* Miriam Bevilacqua é diretora geral do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, da Rede de Colégios do Grupo Marista. - http://www.colegiosmaristas.com.br/

Tags: aberta, bevilacqua, coluna, miriam, Sociedade

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