Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

A sociedade machista e o esporte

Nereida Salette Paulo da Silveira*

Apesar do ingresso de mulheres em quase todos os esportes, ainda é grande a discriminação sexual neste campo. O preconceito e a discriminação não atingem apenas a condição de atleta. As dificuldades aumentam nas posições de gestão, investidas de maior autoridade e poder, como é o caso de treinadoras, técnicas e arbitras. O técnico da seleção brasileira de futebol feminino é um homem, assim como das seleções de vôlei feminino e basquete, que em toda a sua existência só teve uma treinadora mulher, Maria Helena Cardoso. Sandra Mara Leão é a única mulher técnica entre os 26 times da superliga de vôlei.

Apenas em 1971, Léa Campos se tornou a primeira mulher no mundo a arbitrar uma partida de futebol. De lá para cá, as mulheres vêm galgando espaços, e cresce sua participação em arbitragens de partidas do Campeonato Brasileiro de futebol masculino.

Todo o discurso esportivo serve como uma metáfora para os valores de gênero. Esporte é um campo da masculinidade onde a mulher é uma alienígena (forasteira). No mundo dos esportes, se presta um elogio a uma mulher dizendo que ela joga (dirige, corre, marca etc) como um homem e vice-versa. Um garoto ficará profundamente ofendido se lhe disserem que joga como uma mulher, mesmo que esta mulher seja uma Marta (atleta escolhida cinco vezes como a melhor jogadora de futebol do mundo).

Os parâmetros de gênero influenciam que jogos ou atividades são definidas para homens e mulheres quase arbitrariamente desde a infância. No Brasil, são predominantemente os meninos que querem aprender a jogar futebol, enquanto que nos Estados Unidos esse esporte prevalece entre as meninas. Contudo, as sanções sociais para aqueles que violam essas normas costumam ser graves para ambos os sexos.

Como decorrência, apesar de estarmos prestes a sediar dois grandes eventos esportivos mundiais, o brasileiro é em sua grande maioria pouco ativo e apenas 38% praticam algum esporte. Entre as mulheres este número cai para 27,6%.

O enfraquecimento dos estereótipos de gênero tem propiciado a movimentação de homens e mulheres para campos outrora restritos ao seu sexo oposto. Meninas começam a escolher esportes mais agressivos e de confronto como boxe, automobilismo e futebol, enquanto meninos se sentem mais livres para escolher esportes mais graciosos como a ginástica rítmica ou patinação artística sem terem, necessariamente, suas identidades de gênero contestadas.

Os estudos de gênero mostram como o campo de esporte deve ser lido através de uma lente feminista, a fim de se reduzir as disparidades entre homens e mulheres atletas.

* Nereida Salette Paulo da Silveira, doutora em administração de empresas na linha de gestão humana e social, é professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas e pesquisadora dos temas diversidade, gênero e mulheres nas organizações.

Tags: aberta, coluna, nereida, silveira, Sociedade

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