Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

A nova Canudos

Wander Lourenço*

O escritor Euclides da Cunha em seu livro Os sertões, no capítulo intitulado “O homem”, em que diz que a expedição a Canudos “organizou-se de grande comoção nacional, que se traduziu em atos contrapostos à própria gravidade dos fatos, visto que fora a princípio espanto, depois de um desvairamento geral da opinião, um intenso agitar de conjecturas para explicar o inconceptível do acontecimento e induzir uma razão de ser qualquer para aquele esmagamento de uma força numerosa, bem aparelhada e tendo chefe de tal quilate” (CUNHA, 2002, pág. 497). Com a aniquilação dos rebeldes liderados por Antônio Conselheiro para as tropas republicanas, os combatentes fardados que sobreviveram ao prélio do sertão baiano alojaram-se no Morro da Favela, assim batizada em razão da vegetação nordestina. 

Da etimologia do vocábulo ao processo de favelização, deparamo-nos no decorrer dos anos com uma espécie de reflorestamento das precárias moradias em detrimento da Mata Atlântica. Porém, o mais intrigante é que outras substâncias vegetais originárias da flora latino-americana – a maconha e, posteriormente, a cocaína –, adentrariam as páginas da História para transformar o cenário urbano fluminense. A comercialização de tais produtos ilícitos por paramilitares miseráveis, munidos de forte armamento bélico, impulsionou a Presidência da República e o governo do estado do Rio de Janeiro a transferir Canudos para o Complexo da Maré.

Deu-se então, contudo, que a terra sagrada do Conselheiro desmembrou-se do Morro da Providência, a primeira favela carioca; e, por intermédio dos seus tentáculos de pau a pique e zinco, espalhou-se por todo território nacional em disfarces de vilas, palafitas e periferias. Com a ocupação militar aparentemente pacífica das favelas Nova Holanda, Baixa do Sapateiro, Vila do João, Vila Pinheiro etc, a ressabiada população local desprovida de saúde, saneamento básico e, sobretudo, educação e cultura, que já assistira ao idêntico filme no Complexo do Alemão e Rocinha, não se arrisca a demonstrar o alívio necessário de uma sobrevivência em liberdade.

Tal sentimento se concretizaria se as Forças Armadas, para além dos tanques de guerra e metralhadoras giratórias, semeasse a paz através da implantação das instituições de ensino sob os auspícios da Marinha, Exército e Aeronáutica, além de unidades do Cefet. Em diálogo com o surgimento dos centros de formação humana implementados pelo governo federal, aportariam na Nova Canudos os chamados núcleos da Faetec; e, ao menos, um campus da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, como o de São Gonçalo. Destarte, poder-se-ia afirmar que a pacificação da Maré não vem a ser um velho mito de faz de conta para a Copa do Mundo e a Olimpíada, uma vez que os moradores das comunidades seriam contemplados com uma sólida gênese intelectual, que os libertasse do jugo da ignorância que aprisiona mais do que o toque de recolher imposto pela marginalidade vigente em suas existências vilipendiadas pelo poder público.

Isto porque não adianta substituir o fuzil do bandido por um subsídio similar de combate manuseado por fuzileiros navais, paraquedistas, membros do Bope, Batalhão de Choque ou da Guarda Nacional. Nada obstante, é primordial que se instaurem instituições sociais aptas a ultrapassar o poder de resignação religiosa das inúmeras igrejas evangélicas, de modo que o suplemento educacional seja a munição mais propícia para calibrar a sociedade cível menos abalizada economicamente, sem que necessitemos soletrar a cartilha da desigualdade por mais três décadas de um insuportável retrógrado processo de colonização, a que nos submetemos sem trégua ou armistício. 

Em paráfrase à máxima do antropólogo e historiador Euclides da Cunha, entoaremos que, apesar de sua “aparência” ao primeiro lance de vista revelar o contrário, por faltar-lhe a “plástica impecável”, a “estrutura das organizações atléticas”, mesmo sendo “desgracioso” e “desengonçado” ao refletir “no aspecto a fealdade típica dos fracos”, o favelado é antes de tudo um forte. E mais forte ainda o será quando for agraciado pelos ensinamentos canônicos, porque, para mim, povo maravilhoso é povo com educação.

 

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - anderlourenco@uol.com.br           

Tags: aberta, coluna, lourenço, Sociedade, wander

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