Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Vulnerabilidade da criança no consumo

Patrícia Daré Artoni *

Quando vamos ao supermercado, ponderamos nossas escolhas sobre o que comprar e como pagar, contando com os nossos conhecimentos adquiridos. Isso, seguramente, não se daria da mesma forma se entrássemos nesse mesmo supermercado e fôssemos expostos àqueles produtos maravilhosos, coloridos e ao alcance de nossas mãos, sem que fôssemos avisados das consequências e não ter alguém nos observando.

Quando expomos uma criança ao mundo fantasioso e acessível com o toque de um dedo no Ipad, podemos expô-la a consequências indesejadas até mesmo por elas. Ninguém quer ter que ficar chorando e negociando toda hora para ter acesso àquele objeto tão desejado.

É muito comum cometermos o viés da decisão de considerarmos que sabemos as reais consequências. Por vezes, nem queremos lembrar delas frente ao prazer do consumo. Pensar que o Ipad pode viciar, ou que a nova dieta emagrecedora pode dar errado e deixar sequelas duradouras, é com certeza desconfortante.

O estado de preocupação, fragilidade, dificuldade de autoproteção ou de estar em risco nas interações com o ambiente, modo geral e também no contexto de consumo, recebe o nome de vulnerabilidade, na literatura acadêmica.

O estudo da vulnerabilidade do consumidor tem ganhado relevância nos estudos acadêmicos em geral e, em específico, nos de marketing. Ele se insere no contexto das investigações das implicações sociais de práticas mercadológicas, tanto para os consumidores como para a sociedade, movimento que permeia os estudos no campo de marketing desde a década de 60 e que tem atribuído às ações de marketing responsabilidades pela melhoria do bem-estar social, cobrando das empresas e seus gestores ações que gerem mais direitos e poderes aos consumidores, e que reduzam práticas predatórias, tais como as de empréstimos abusivos a pessoas de baixa renda e a elevação da obesidade em crianças.

Consumidores cotidianamente, em suas experiências e relações de consumo, são solicitados a tomarem suas decisões recorrendo a suas competências, tais como conhecimentos adquiridos, para que possam obter resultados satisfatórios. Se achamos que podemos, nossas intenções de consumo viram comportamentos reais. Caso contrário, se temos conhecimento de nossas (in)habilidades, pensamos mais sobre isso. Em minha tese de dourado pude observar que de nada adianta falarmos das possíveis consequências indesejadas do uso indevido do Ipad, por exemplo, se as pessoas não estão preocupadas com as possíveis consequências do consumo, ou se acham invulneráveis a elas por saberem “usar” suas compras. Fica a dica! 

*Patricia Daré Artoni, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, é doutora em administração de empresas na linha de Pesquisa de Estratégias de Marketing na FGV–SP, além de mestre e graduada em administração de empresas e possui experiência acadêmica internacional na Ecole Supérieure de Commerce de Toulouse (França).

-

Tags: aberta, coluna, daré, patricia, Sociedade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.