Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

O empreendedorismo no Brasil

Marcus Quintella *

O Global Entrepreneurship Monitor (GEM) é um programa de abrangência mundial que vem realizando pesquisas sobre o nível da atividade empreendedora mundial, desde 1999. Inicialmente, o GEM contava com a participação de 10 países, por meio de uma parceria entre a London Business School, da Inglaterra, e o Babson College, dos Estados Unidos. Atualmente, o programa de pesquisas do GEM abrange mais de 80 países, com perspectivas de crescimento a cada ano, e é considerado o maior estudo contínuo sobre a dinâmica empreendedora no mundo.

O GEM tem como foco principal o indivíduo empreendedor, mais do que o empreendimento em si, e o empreendedorismo deve ser entendido como qualquer tentativa de criação de um novo empreendimento, como, por exemplo: uma atividade autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um empreendimento existente.

Desde o ano 2000, o Brasil vem participando da pesquisa do GEM, que é conduzida pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP) e conta com a parceria técnica e financeira do Sebrae. Em 2011, a pesquisa do GEM passou a receber apoio técnico do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGVcenn/EAESP).

As informações e dados aqui divulgados sobre o GEM foram extraídos do Relatório Executivo GEM 2012, que pode ser baixado, gratuitamente, no seguinte endereço eletrônico: www.ibqp.org.br/gem.

Segundo as pesquisas do GEM, o Brasil está classificado entre os países mais empreendedores do planeta, com uma taxa média de empreendedorismo de quase 25%, no período entre 2002 e 2012. Nesse período, a taxa total de empreendedorismo teve um aumento expressivo, passando de 20,9%, em 2002, para 30,2%, em 2012, representando um aumento de quase dez pontos percentuais. Isso significa dizer que, hoje, existem cerca de 30 empreendedores em cada grupo de 100 mil brasileiros pertencentes à população economicamente ativa do país. Essa evolução é compatível com o dinamismo da economia brasileira no período: o PIB cresceu em média cerca de 4%, em grande parte com base na expansão do mercado interno, o que abriu espaço para atividades empreendedoras dos mais diversos tipos.

Em números absolutos, o Brasil possui pouco mais de 36 milhões de indivíduos adultos da população, entre 18 e 64 anos, desenvolvendo alguma atividade empreendedora, indicando a importância econômica e social do tema e a necessidade de ações governamentais ou não governamentais para a consolidação do empreendedorismo no país. Certamente, dentro dessa população empreendedora, existem milhares de imigrantes, provenientes de todos os continentes, que estão prosperando e contribuindo para o desenvolvimento do país.

Em 2012, o GEM Brasil entrou em uma nova etapa, com o aumento significativo da amostra pesquisada, que passou a contar com a participação de 69 países, onde foram realizadas as duas principais etapas da pesquisa: o levantamento de dados junto à população com idade entre 18 e 64 anos e a obtenção de opiniões de especialistas sobre as condições existentes nos países para o desenvolvimento de novos negócios. No Brasil, foram entrevistados 10 mil indivíduos na faixa etária citada, residentes nas cinco regiões do país (foram entrevistadas 2 mil pessoas em cada região). Adicionalmente, foram entrevistados 87 especialistas de diversos segmentos da sociedade brasileira.

Ainda em 2012, o GEM introduziu em sua pesquisa uma questão sobre o sonho do brasileiro, procurando comparar o desejo de ter um negócio próprio com outros desejos, como, por exemplo, comprar uma casa, viajar ou ter uma carreira em uma empresa. Os resultados mostraram que o sonho de ter um negócio próprio superou todos os demais desejos, exceto viajar pelo Brasil e ter uma casa própria. No entanto, o sonho de ter um negócio próprio (43,5%) superou em muito o desejo de ter uma carreira em uma empresa (24,7%). Ao se examinar as regiões, embora os percentuais tenham variado bastante, de região para região, o sonho do negócio próprio ficou entre os três primeiros sonhos nas cinco regiões pesquisadas.

Como orientação ao leitor sobre os perigos ocultos no sonho do negócio próprio, recomendo a leitura de um artigo que escrevi há muito tempo no portal da Revista On www.revistaon.com.br, intitulado Dicas para o empreendedor brasileiro. Além disso, o candidato a empreendedor individual deve, sem dúvida alguma, buscar auxílio nas entidades de apoio, como Senac, Senai e Sebrae, entre outros, ainda mais que a pesquisa do GEM mostrou que 82,2% dos entrevistados não procuram esse tipo de ajuda.

Em última análise, como o Brasil tornou-se um país de grandes oportunidades de negócios, em todos os setores, penso que o Brasil, hoje e nas próximas décadas, continuará sendo um campo fértil para investimentos não especulativos de capitalistas nacionais e estrangeiros, bem como para empreendedores de pequeno, médio e grande portes.

 

* Marcus Quintella é professor da Fundação Getulio Vargas. - marcusquintella@uol.com.br , mvqc@uol.com.br

Tags: aberta, coluna, marcus, quintela, Sociedade

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