Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Ação cotidiana

Tarcisio Padilha Junior*

Como vivemos todos em sociedade, não se pode prescindir da consideração dos efeitos que a satisfação dos meus desejos tem sobre a satisfação dos desejos dos outros. Mas quem são estes outros?

O que é absolutamente necessário a toda convivência humana não é apenas a exigência de regras de conduta bem fundadas, mas também a sua observância. Para mostrar a validade de uma regra pode ser suficiente uma boa razão, mas esta boa razão não basta para fazer com que a regra seja observada.

Para além de uma mera observância das regras, que parece prevalecer no mundo contemporâneo, penso que deveríamos revalorizar a ética das virtudes como fundamento da nossa educação cívica. Para Norberto Bobbio, ainda mais importante que as virtudes individuais são as chamadas virtudes sociais. Dentre as virtudes sociais, o notável pensador distinguiu especialmente a virtude da serenidade. Bobbio diz que “a serenidade é uma disposição em relação aos outros que não precisa ser correspondida para se revelar em toda a sua dimensão”. É um dom sem limites preestabelecidos e obrigatórios.

Existem as virtudes complementares, aquelas que podem estar juntas e que, estando juntas, se reforçam e se completam reciprocamente. Em relação à serenidade, ocorrem duas a Bobbio: simplicidade e misericórdia. Por simplicidade entende a capacidade de fugir intelectualmente das complicações inúteis e praticamente das posições ambíguas — de resto corriqueiras no político de hoje.

“A política não é tudo. A ideia de que tudo seja política é simplesmente monstruosa. Posso afirmar ter descoberto a serenidade na longa viagem de exploração além da política”, adverte Bobbio. E completa: “Opostas à serenidade, como eu a entendo, são a arrogância, a insolência, a prepotência”.

O homem sereno atravessa a intempestividade mantendo os próprios critérios, a própria compostura. Está intimamente convencido de que o mundo por ele imaginado será substantivamente melhor do que aquele em que é obrigado a viver. E assim o prefigura em sua ação cotidiana.

 * Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

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