Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

E depois de 2014...

Marcus Garcia*

Os cidadãos e o Estado brasileiro se preparam para a grande festa de 2014, a Copa do Mundo. Um evento como este trará benefícios para o país, mas também efeitos nocivos. O que teremos de positivo serão as obras de infraestrutura e mobilidade urbana, preparação de pessoal para os atendimentos de hotelaria, restaurantes, pontos turísticos e traslados, e de equipes operacionais dos meios de transporte, segurança e suvenires. O Brasil terá a chance de potencializar a sua visibilidade e o Estado poderá promover ações para atrair investidores nos segmentos de interesse para o país, principalmente o turístico. É possível ainda que ao final da Copa tenhamos um aumento da autoestima dos brasileiros, de forma coletiva.  

Entretanto, não percebo benefícios permanentes. E como depois de toda grande festa vem a ressaca, os efeitos negativos da Copa ainda virão. Um aumento proposital nos preços dos transportes já é perceptível, assim como da hospedagem e da alimentação. Pela frente teremos outros, como os congestionamentos nos aeroportos e a falta de vagas em hotéis. A Fifa, com sua política de controle sobre o comércio de suvenires e outras atividades, causa impacto direto nos pequenos comerciantes que ficam no entorno dos estádios. Aqueles que estão investindo em ampliação ou melhoria dos seus estabelecimentos para receber o público precisam lembrar que a Copa dura apenas 31 dias. Em seguida, os times e torcedores voltam para suas casas e, com a retomada da rotina, o retorno dos investimentos pode não ser o esperado. 

O desvio de atenção que a Copa ocasiona tem reflexo também na educação e na rotina das famílias. As agendas escolares no país foram antecipadas, e no período dos jogos muitas crianças não terão aulas. Algumas, inclusive, ficarão sem a atenção dos pais e familiares e, sem entender muito bem ou gostar do evento, serão obrigadas a participar. Além disso, após a Copa, entraremos em campanha eleitoral para Presidência da República, Senado, governadores e deputados federais e estaduais. Será um período de recesso eleitoral, e o país funcionará lentamente até o seu término. A distração será completa com Copa e eleições gerais em um mesmo ano. 

Depois de 2014, com o final da Copa, o povo brasileiro pode aguardar ainda uma grande dívida a ser paga: atrasos nas questões da educação, segurança, saneamento, infraestrutura, saúde, pesquisa aplicada e pura, produção agrícola, portos, aeroportos, Forças Armadas, entre outros tantos segmentos do nosso país, que sofrerão os efeitos deste evento. Certamente, esses problemas serão solucionados, pois é natural que o sistema busque o equilíbrio. Entretanto, a que custo? 

* Marcus Garcia, professor, é integrante dos Grupos de Estudos em Inovação Tecnológica da Universidade Federal do Paraná e de Educação da Universidade Tuiuti do Paraná. Autor de 17 livros nas áreas técnica, motivacional e educacional, leciona há mais de 30 anos e atua como palestrante e consultor em educação e desenvolvimento humano para empresas e instituições de ensino.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.