Jornal do Brasil

Domingo, 14 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Diferenças notáveis

Vitor Sapienza*

Com o passar do tempo vamos nos acostumando a citar o passado e, sem perceber, nós o colocamos quase perto da perfeição. Quando fazemos a análise, partimos da nossa situação atual e usamos como parâmetros alguns fatos vividos há décadas, e nos tornamos críticos e,, em algumas ocasiões, até extremamente contundentes.

Sem o consumismo de hoje, incentivado pela mídia e pelas facilidades da vida moderna, a nossa infância tinha algumas características que passavam quase despercebidas. Somente depois de adultos é que percebemos que, ao contrário de hoje, éramos incentivados a poupar e eram raras as crianças que não tinham um cofrinho onde guardavam as parcas moedas. O respeito aos idosos, as atitudes cívicas na escola, o respeito aos professores, a maneira como nos relacionávamos com os demais, em quase tudo.

Em uma análise bem resumida, cultuávamos a doutrina do “ser”, bem diferente do que vemos hoje, quando os nossos jovens se tornaram adeptos do “ter”. Assim, sonhávamos em “ser alguém na vida”, buscarmos o conhecimento; éramos incentivados pela família a poupar, estudar e ir em busca de conquistas, sempre pautadas pelo conhecimento, pelo aprimoramento cultural.

Hoje, infelizmente, vemos algo bem diferente. As pessoas sonham com bens, sejam eles carros de luxo, imóveis de alto padrão, bens móveis e imóveis, cada vez mais sofisticados. E, muitas vezes, ignora-se algo importante, a evolução cultural. E o pior é que isso atinge também os jovens e crianças. E a competição passa pelo equipamento eletrônico, pelo telefone celular, pelo tênis de marca famosa, pela roupa de grife, seja ela original ou pirata, tanto faz.

Se a moda nivela os costumes, o mesmo não ocorre na hora de analisarmos os comportamentos. Quando a pessoa consegue unir o ser com o ter, quase que automaticamente ela agrega alguns valores que se mostram eficazes na hora de defender os seus direitos. Quando atingidos, eles conseguem mostrar força monopolizando os meios de comunicação, intensificam a sua condição de vítimas, e a sua dor parece mais intensa que a os pobres mortais.

A esse segmento somam-se os que têm amigos, amizades influentes, chegados ao poder, ou mesmo os que conseguiram alguma notoriedade graças à atividade que exercem; e, dependendo da situação, a sociedade é instigada e, sem notar, vai às ruas protestar contra aquilo que classifica como abuso, violência e autoritarismo.

É nessa hora que o brado unifica as classes sociais, mas ele fica mais intenso quando envolve a camada mais bem informada, os segmentos mais influentes e, em muitos casos, os que conseguem meios para erguer a voz e aparecer nos meios de comunicação. É quando a diferença torna-se nítida: o brado pode ser único, mas a repercussão vai depender unicamente da maneira como o eco irá sensibilizar as nossas autoridades.

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado.- www.vitorsapienza.com.br

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