Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

Às portas da anomia

Carlos Eduardo Fialho*  e Tatiana Miranda**

Certos fatos são indícios do estado social, o linchamento sistemática é um deles. Mais um infrator amarrado e linchado porque cometeu pequenos delitos. Minha impressão é que pessoas indignadas por todos os desmandos e descontroles que desafiam os cidadãos, transformam alguns indivíduos em agentes da desforra pelas vias da barbárie. Ao que parece, se a cidadania não tem garantias, e não têm poder para eliminar os privilégios dos traficantes de drogas, contrabandistas de dinheiro público e políticos com patamares de corrupção da ordem de milhões de reais, então os mais exaltados “interferem” linchando o assaltante que bate as carteiras no bairro. O crime combatido com o crime. Por outro lado a impunidade atravessa todos os patamares da polícia e da justiça. Há alguns dias vi uma senhora gritar pedindo ajuda para guardas municipais porque tinha sido assaltada. O assaltante passou andando um pouco mais rápido pelos guardas, atravessou a pista do Aterro e seguiu caminhando sem preocupação, de posse do dinheiro da vítima. Da mesma forma caminham sem preocupação homens públicos que estão de posse do nosso dinheiro. O crime aliado à impunidade.

Não é novidade que não existem sociedades sem crimes, tampouco a ocorrência do crime não desestrutura qualquer sociedade. Durkheim, sociólogo da segunda metade do século XIX e início do XX, nos ensina que a anomia social ocorre quando há o esgarçamento das instituições que dão sustentação ao funcionamento da sociedade. O crime não é um problema social, é um fato que deve ser tratado pelas instituições de educação, polícia e justiça (nessa ordem!) para que a sociedade continue caminhando sem grandes abalos. Mas quando o cidadão acha legítimo linchar o pequeno delinqüente (a freqüência naturaliza o fato) pode ser que uma das três instituições estejam esgarçadas. Ou as três!

Um dos fatores que torna a vida em sociedade possível é o bom funcionamento das instituições, ponto crucial de garantia da civilidade. Quando isso não acontece, entramos na rota da barbárie. As demonstrações de desmando estão além da revanche. Abrem caminho para uma sociedade que não prevê garantias de acesso à cidadania, para os dois lados: o agressor e o agredido. Marca os limites do que poderá vir e ser a anomia.

* Carlos Eduardo Fialho é sociólogo, e ** Tatiana Miranda, pedagoga.

Tags: crucial, da civilidade, de garantia, isso, não, ponto, quando

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