Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

As circunstâncias especiais na Ucrânia

Ricardo Luigi*

O artigo quinto da Constituição ucraniana diz que ninguém pode usurpar o poder do Estado. Para uma parte dos ucranianos, esse aspecto claramente foi desrespeitado com a deposição do presidente Víktor Yanukóvych. Para os manifestantes da Praça Maidan, seu governo era a materialização da usurpação de poder.

A chamada Revolução Laranja, ocorrida entre 2004 e 2005, já havia tirado o então presidente Yanukóvych do cargo. Havia fortes indícios de que a sua eleição havia sido conseguida com base em corrupção e crimes eleitorais. O problema é que aqueles que o substituíram foram afastados pelo mesmo motivo: corrupção.

O governo de Viktor Yushchenko foi marcado pelas denúncias de irregularidade que ceifaram parte de seu ministério. E Yanukóvych ganhou nova chance em 2010. Entretanto, as manifestações supostamente populares, que começaram em Kiev em novembro de 2013, fizeram com que o presidente em exercício fugisse do país em fevereiro de 2014. Dias depois o Congresso o destituiu do cargo.

As manifestações na Ucrânia representam uma divisão do país: étnica, política e de aspirações. De um lado, ucranianos pró-Europa, ultranacionalistas e neofascistas. De outro, ucranianos pró-Rússia, russos, russófonos e outras minorias sociais. Dois modelos de país postos à mesa.

Cabe ressaltar que essa distinção é menos geográfica e mais cultural. Uma “Ucrânia Ocidental” quer ser parte da União Europeia. Mesmo correndo o risco de virar uma nova Grécia. Uma “Ucrânia Oriental” não quer perder os privilégios de estar próxima ao principal parceiro: da Rússia vem toda a sorte de parcerias econômicas.

Dos russos os ucranianos herdaram seu parque tecnológico, com destaque para as siderúrgicas, a indústria bélica e a tecnologia aeroespacial. Da Rússia vem o gás fornecido a preços módicos, que ainda passa pelos gasodutos ucranianos em direção ao resto da Europa, gerando outras divisas. A aproximação da União Europeia estava condicionada a um empréstimo de 20 bilhões de euros que não veio. A Rússia acenou com cerca de 11 bilhões.

E a Crimeia? A Crimeia tem 25% de ucranianos apenas, 12% de tártaros, 6% de outras etnias, e uma grande maioria de russos. Sua população sentia-se ameaçada pelos manifestantes, além de ter muito a perder com uma possível cisão com a Rússia. Por isso foi às urnas para buscar o que lhe parecia melhor. A vontade popular se fez, sem violência, embora com a presença de cerca de 21 mil soldados russos. Esses soldados estavam lá legitimamente, já que Sebastopol, a capital da Crimeia, é base russa até 2042.

Quem será capaz de deslegitimar os 96,7% das pessoas que votaram pelo sim? Como dito pelas autoridades russas, o referendo na Crimeia e a escolha pela anexação à Rússia se justificam por “circunstâncias especiais”. Tudo bem que o artigo segundo da Constituição aponte que o território ucraniano é indivisível e inviolável. Mas, diante das circunstâncias, isso soa mais como fantasia ufanista que como uma realidade imutável.

*  Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor universitário e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais. - ricardoluigi@cenegri.org.br 

Tags: anexação, autoridades, e a escolha, na crimeia, o referendo, pela, pelas, russas

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