Jornal do Brasil

Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

RH deve estar atento para a "ética flexível"

Susana Falchi*

Há anos vem se discutindo o papel estratégico da área de Recursos Humanos nas organizações.  Juntamente com essa discussão vieram vários modelos, como a Consultoria interna, Business Partner, separação das áreas de Administração de Pessoal e Desenvolvimento Organizacional.  Mas a grande responsabilidade de RH, que ainda não está integralmente em seu escopo, é o comportamento organizacional, ou seja, o comportamento de seus funcionários e administradores dentro de toda a sua abrangência e complexidade.

Garantir que os valores organizacionais permeiem a empresa como um todo é um dos papéis mais importantes de RH, afinal os valores definem o nosso "jeito de atuar e se relacionar" com todos os stakeholders.   Quando falamos em valores, é preciso chamar a atenção para o valor ÉTICA, um dos mais citados nas organizações brasileiras. O conceito de ética passa por princípios, virtudes, valores universais duradouros e afirmativos.

Os princípios éticos deveriam permear todas as organizações de trabalho e a prática organizacional com transparência, equidade, franqueza, responsabilidade social, solidariedade, integridade, valorização do trabalho, lealdade, sustentabilidade, perenidade empresarial etc. No entanto, a realidade é muito diferente, como demonstra a pesquisa Perfil Ético dos Profissionais nas Organizações Brasileiras realizada pela consultoria de gestão de riscos ICTS, em 2013.

A pesquisa teve como foco mapear o Perfil Ético sob a ótica de Fraude e Compliance. Entendendo-se como fraude obter vantagem sobre outro por meio de sugestões ou omissão da verdade e Compliance, como estar em conformidade e fazer cumprir regulamentos internos e externos. Foram 3.211 os entrevistados, em 45 empresas brasileiras, e os dados apontados no levantamento mostraram-se preocupantes.

Com relação ao Potencial de aderência Ética Organizacional, mostrou-se que  11%  não estão aderentes; 69% têm flexibilidade e somente 20% são aderentes. Esse índice é alarmante, porque a flexibilidade está associada ao ganho que o indivíduo pode obter.  Isso quer dizer que, dependendo do ganho pessoal, pode-se flexibilizar o padrão ético. Mas, quando se trata de comportamento ético, não se tem flexibilidade! Ou você é Ético ou não é Ético! Não existe o Ético flexível!

Associado a esse indicador, ainda temos uma pesquisa conduzida pela HSD Consultoria, mostrando que 20% dos executivos pesquisados, em uma amostra de 5 mil avaliados, apresentam desvio de caráter.  Esse comportamento, associado à flexibilidade de padrão ético, nos remete à fraude, maquiagem de balanço, desvios de valores, de mercadorias, etc.    

A responsabilidade da área de Recursos Humanos passa a ser enorme com relação a esses fatores. É preciso garantir que as pessoas tenham perfis comportamentais saudáveis, íntegros e éticos nas organizações, trazendo instrumentos que mapeiem esses comportamentos e mitiguem o risco empresarial.

Com a promulgação da Lei 12.846, em agosto de 2013, as empresas passarão a responder como pessoa jurídica por atos cometidos por seus funcionários contra a administração pública nacional ou estrangeira, esse tema ganha uma grande importância no cenário empresarial. Se antes falávamos em ética como virtude e princípios, agora teremos que responder sobre a instância jurídica que eleva significativamente a responsabilidade das empresas pela conduta ética de seus profissionais.

Neste cenário,  as empresas precisam buscar meios para analisar não apenas a capacidade técnica e intelectual dos seus profissionais mas também a capacidade de discernimento e a resistência a pressões situacionais quando diante de dilemas éticos que podem estar presentes na sua rotina empresarial.  Com esse cenário, a área de RH passa a ter uma responsabilidade dentro de Gerenciamento de  Riscos, que talvez nem a própria área esteja enxergando, e esse pode ser um papel estratégico há muito tempo pleiteado nas estruturas organizacionais.

* Susana Falchi é CEO da HSD Consultoria em Recursos Humanos. Com quase 20 anos de experiência na área, a executiva foi convidada a integrar o Comitê de RH do IBGC, após fazer o curso de formação para conselheiros.

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