Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Brasil e o exemplo da Coreia

Marcos Cintra*

Elevar a produtividade total do capital e do trabalho é a saída para a economia brasileira acelerar seu crescimento. O desafio para viabilizar essa necessidade é a qualificação da força de trabalho. Nesse sentido, o grande nó a ser desatado encontra-se na esfera educacional, principalmente no âmbito público.

É cada vez maior o peso da educação para a economia brasileira. O país já incorporou praticamente todo seu bônus demográfico com a redução do desemprego em anos recentes. Crescer de modo sustentado passou a depender da elevação do nível de escolaridade para um maior contingente da força de trabalho.

A educação contribui para o crescimento econômico de várias formas. A principal delas se dá pela capacitação da força de trabalho que, dessa forma, se torna mais apta a absorver, reproduzir e desenvolver tecnologias. Com a mão de obra mais qualificada, aumenta a produtividade marginal do trabalho, e o efeito é a expansão da renda das empresas e, em termos agregados, o maior ritmo de crescimento da economia.

Um dos casos mais emblemáticos do efeito da educação sobre a economia refere-se a Coreia do Sul. O país atingiu a universalização da educação básica no final dos anos 60 e do ensino médio ao longo dos anos 80. Esse processo foi acompanhado de maciços investimentos na formação de professores, em material de apoio e na melhoria de estrutura e funcionamento das escolas.

O investimento em educação de qualidade combinado com a disciplina asiática e a valorização do ensino pelas famílias foi a alavanca para a Coreia passar de uma economia com renda similar à de países africanos para uma das nações mais ricas do planeta, exportadora de tecnologia de ponta. Paralelamente, o Brasil negligenciou a educação como fator de transformação social e gerador de riqueza, e o resultado é o baixo nível da produtividade de sua força de trabalho, com o país mantendo-se num patamar de renda média e dependente da exportação de produtos de reduzido valor agregado.

Conforme dados do Banco Mundial, em 1960 a renda per capita da Coreia era de US$ 155 e a do Brasil de US$ 208. Em 2012 a renda média de cada coreano foi de US$ 22.600 e a do brasileiro de US$ 11.300..

Recentemente, foi divulgado o resultado do ltimo Pisa (Programme for International Student Assessment), programa que avalia a qualidade da educação em vários países. O levantamento, com 65 países em sua edição de 2012, serve para mostrar como as nações capacitam a juventude visando promover agentes responsáveis pela geração eficiente de riqueza. No tocante à habilidade com leitura a Coreia ficou em 5º lugar e o Brasil na 58ª posição. Em relação à matemática a Coreia foi novamente a 5ª colocada e o Brasil ficou em 58º lugar. Em ciências as posições foram 7ª e 59ª, respectivamente.

A Coreia seguiu uma trajetória rumo à sociedade do conhecimento e colhe os frutos. O Brasil tem muito a fazer. É vergonhoso para o país ainda contar com 13 milhões de analfabetos e 30 milhões de pessoas em situação de analfabetismo funcional. Isso sem falar na evasão escolar que, ao saltar de 7,2% para 16,2% em doze anos, mantém metade dos jovens entre 15 e 17 anos fora do ensino médio.

* Marcos Cintra, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), é  professor titular de economia na FGV (Fundação Getulio Vargas). Foi deputado federal (1999-2003) e é autor do projeto do imposto único, além de subsecretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. -www.facebook.com/marcoscintraalbuquerque

Tags: a sociedade, do conhecimento, eguiu, rumo, trajetória, uma

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