Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Por uma logística sem alegoria

Wander Lourenço*

Era uma vez um mandatário oriental de origem desconhecida, que não conseguia lidar com os inúmeros casos de violência – tráfico de drogas, pedras preciosas, animais silvestres, órgãos humanos e influências, corrupção, sequestro, assalto a banco, domicílios e transeuntes, latrocínios –, em sesmaria de um continente equidistante. Até que o soberano ordenou que reunissem os idôneos conselheiros do reino, de modo a palestra sobre a criminalidade de um vilarejo habitado por um gentio pacífico e hospitaleiro, afeito à batucada e ao futebol. 

Por dias e noites, altercaram sobre as soluções para o banimento da marginalidade, oriunda das ocas e senzalas do período da colonização. O monarca e seus asseclas deliberaram que, para a abolição da bestialidade apócrifa dos vilãos, era preciso se autorizar a construção de rígidos calabouços, com fosso e dragões, em Fernão de Noronha ou Ilha Grande. E assim se edificaram residências de correção, a fim de que os condenados se resignassem com os castigos promulgados pelos homens de toga e martelo. No princípio, houve aplauso da população, pois que, entre a masmorra e o cadafalso, se castigavam os fora da lei com a perda da humanidade. Porém, os bastardos cativos se organizaram em facções ou partidos, por influência dos inimigos do antigo imperador anônimo, para que se instituíssem combates em defesa da liberdade de ação e expressão. Os déspotas responsáveis pelas sanções se prontificaram a baralhá-los em confinamento, com o intuito de amainar ideologias utópicas abafadas pela precariedade intelectual dos insurrectos sem eira, beira ou pia batismal.

O resultado foi que os ladrões de bancos e galinhas se debruçaram por sobre o ideário marxista de guerrilha urbana; e, com o auxílio de uma substância mágica e demoníaca,  substituíram os quilombos por favelas protegidas por quatro gerações ou décadas de facínoras sanguinários, habituados a reger com metralhadoras automáticas provindas dos países que, à época, orquestravam uma fria guerra. Até que um xerife sulista da América lusitana decidiu pela pacificação das áreas de risco, contaminadas por rifles, minas, pistolas, bazucas e granadas. Houve retenções de mercadoria, e parte dos bandoleiros migrou para outras regiões da comarca, cemitérios e presídios. Foi então que as rebeliões se tornaram recorrentes com um saldo de óbitos e reféns...

O abismado cavapitã tornou a convocar os partidários de ordem e justiça para uma reunião de comando. Os donatários entreolharam-se, abismados, por não se descobrir a fórmula da civilização. Cotejaram dados e realidades, refizeram-se os cálculos sobre penalidades e tortura, arquitetaram diretrizes por choque elétrico e afogamento, rabiscaram relatórios de reabilitação por mecanismos de religiosidade, sem, no entanto, diagnosticarem o elemento básico de transformação da conduta servil dos homens. Ao término, os nobres convivas banqueteavam com carnes, doces e vinho, quando um dos conselheiros, que até então não se pronunciara, por acanhamento ou desengano, pediu a palavra aos demais confrades e magistrados. 

Discursou que, em sua época de fidalgo ou plebeu, jamais presenciara tamanha desigualdade entre a burguesia e os pobres colonizados, de maneira que a desfaçatez e ganância eriçaram a revolta dos desvalidos, sem pão e amém. O ancião solicitou permissão aos cardeais da nação para demonstrar que, além de uma punição, era preciso imputar ao homem educação e trabalho. A plateia desdenhou tal insano eremita com provocações e ironias, porque, se era para dispor de uma verdade já conhecida, que se mantivesse em silêncio. Por um instante, o homem calou-se. Para logo adiante, como se a voz brotasse de uma força da natureza, afiançar que se almejassem abolir as rebeliões dos alforriados seria urgente e necessário se cuidar da construção das instituições de ensino, em que se ministrassem lições de Democracia.

Por debaixo de protestos, pedras, troças e apupos, após ajeitar o chapéu, encurvadamente o alquimista retirou-se do plpito real, sem despedir-se da furiosa plateia em polvorosa. Na manhã seguinte, deu-se que mais um soldado foi morto em ação sem poder se resguardar da arrogância dos magistrados e conselheiros Del Rey daquela inóspita província ao Sul do Equador.    

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário e autor de diversos livros, entre os quais, ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br    

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