Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Por que vai mal a indústria no Brasil?

Ricardo Martins*

A indústria brasileira vai mal, e não há nenhuma boa perspectiva para este ano. Em 2013, o setor cresceu apenas 1,2% em relação a 2012, e esse fraco desempenho deve também se repetir em 2014. Como sempre, as causas são nossas velhas conhecidas: a alta carga tributária, as deficiências de logística, o excesso de burocracia, o apagão de mão de obra, além da falta de isonomia entre produtos nacionais e importados, estes últimos, por muitas vezes, chegam mais baratos ao mercado brasileiro, pois não carregam os custos decorrentes dos fatores citados.

Somente nos últimos meses do ano – novembro e dezembro –, segundo levantamento do IBGE, a produção industrial nacional caiu 3,5%. No estado de São Paulo a queda foi ainda maior: 5,5%. A queda estadual, acumulada nos últimos doze meses, chega a 6,4%. O índice de emprego industrial também caiu 1,1% em 2013. Como consequência, as 7.500 indústrias da Região Leste da cidade de São Paulo, na sua grande maioria, de porte pequeno ou médio, estão padecendo e já não conseguem dar continuidade a suas atividades. Lembremos que a Zona Leste foi o berço da implantação do parque industrial no estado de São Paulo. A região se formou ao longo da antiga rota São Paulo/Rio de Janeiro e foi estimulada pela implantação, no século 19, da Ferrovia Central do Brasil, ao longo da qual se implantou um cinturão de indústrias.

A área foi se adensando gradativamente, atraindo um contingente populacional de baixa renda, primeiro pelos imigrantes e depois por migrantes, que vieram a São Paulo atrás de melhores condições de vida e foram obrigados a se estabelecer na periferia, em bolsões de pobreza sem infraestrutrura, saneamento básico ou eletricidade.

Hoje, 37% da população paulistana vivem na Zona Leste, que é tida apenas como “região-dormitório”, já que existe um gap gigantesco entre o número de moradores – 3.713.683 habitantes e o índice de empregos gerados nos 313,3 quilômetros quadrados dos distritos de Aricanduva, Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo, Guaianases, Itaim Paulista,Itaquera, Mooca, Penha, São Mateus, São Miguel Paulista e Vila Prudente.

Com o crescente processo de desindustrialização na capital paulista, essa população registra ainda a pior renda média familiar. Ao longo dos anos, governos e governantes não implantaram nenhuma diretriz para que o adensamento urbano não ocorresse de forma caótica. Os reflexos desse passado continuam trazendo graves consequências para a Zona Leste. Agora a prefeitura de São Paulo começa a fazer planos para equilibrar a relação morador/trabalho e espera que, daqui a 30 anos, os eixos da Avenida Jacu-Pêssego, na Zona Leste, e da marginal do Tietê, se transformem em pólos de desenvolvimento. A previsão é que a região do Arco Tietê receba, até 2044, 70 mil moradias de interesse social e tenha 770 mil moradores.

Criou-se o Programa de Desenvolvimento Econômico para a Zona Leste, uma iniciativa da prefeitura de São Paulo, com a implantação do Pólo Industrial da Zona Leste, em Itaquera, no entorno do Estádio do Corinthians. Porém, a oferta de incentivos fiscais se dá sobre impostos que não se aplicam ou não interessam à indústria, como ISS e IPTU, sendo que o que atrai as indústrias são incentivos sobre o ICMS, concedidos apenas por governos estaduais.

Indústrias também são atraídas por boas condições de logística, rodovias, ferrovias e terminais de carga, disponíveis em outras áreas da Zona Leste, que não recebem a devida atenção das autoridades constituídas para ali se instalarem ou permanecerem. Ao contrário, o poder municipal entende que muitas dessas regiões devam ser adensadas por residências, o que pode levar à expulsão das indústrias instaladas nesses locais num futuro próximo.

Um caso típico dessa situação é a região da Mooca, com suas tradicionais fábricas que acabam de ver realizado o sonho de ter um ramal ferroviário ali implantado, o que facilitou demais a logística das indústrias processadoras de aço ao seu redor. A prefeitura, porém, está propondo a criação de um Pólo de Desenvolvimento Econômico em Itaquera, quando os empresários querem a garantia de permanecer no Complexo Industrial da Mooca-Vila Carioca. O setor industrial do bairro da Mooca teme ser obrigado a se deslocar da região, por isso quer delimitar o Parque Industrial da Mooca, onde já existem 25 mil empregos diretos e 12 mil indiretos gerados pela indústria instalada.

A cidade tem de pensar mais nas pequenas e médias indústrias como forma de empregar seus moradores, não pode virar as costas para esse importante segmento da economia, sob o risco de, num futuro próximo, assistir ao que ocorre nas grandes cidades americanas, casos de Detroit e Nova York, que hoje clamam para que as indústrias voltem a se instalar ali.

Entendemos como saídas principais para a nossa região: a ampliação de recursos públicos e privados; a realização de ações específicas e estratégicas para gerar novos postos de trabalho e aumento da renda média da população; o fortalecimento das atividades econômicas já estabelecidas na área, como indústria e comércio; a desburocratização e a agilização de procedimentos legais junto aos órgãos municipais e, principalmente, a integração de conselhos, associações de classe e lideranças regionais, não de Itaquera apenas mas de todos os 11 distritos da Zona Leste.  

* Ricardo Martins, diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), é diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, além de vice-presidente do Sicetel( Sindicato Nacional das Indústrias de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos). - linkciespleste@gmail.com.

Tags: cidade, mais, médias, pensar, pequenas, tem

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