Jornal do Brasil

Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

A doença como um capítulo indissolúvel da história de uma pessoa

Clarissa Silbiger Ollitta*

Nas últimas décadas há um consenso de que fatores psicológicos participam do surgimento das doenças físicas. Tanto os profissionais da saúde como o público leigo admitem que “estar doente” tem relação com a mente — observamos pessoas que adoeceram gravemente após um grande problema na vida.

Das patologias reveladas pela psicanálise, a psicossomática ocupa um lugar diferenciado, pelo caráter fundamental que unifica o corpo e a mente, mostrando a participação do fator psicológico tanto na manifestação como no tratamento de doenças físicas em geral. Desde uma simples alergia até o câncer, não se encontra mais quem conteste este fato incontornável.

Desde 1968, o médico psicanalista argentino Luis Chiozza pesquisa como se dá a interação entre corpo e psique na saúde e na doença. Para ele, a doença é uma condição presente em nosso cotidiano e, frequentemente, vista como castigo que nos mobiliza, nos atropela e nos atormenta. Se considerarmos que passamos mais tempo da nossa vida com alguma doença do que plenamente sadios, talvez pudéssemos repensar a noção de saúde como ausência total de sintomas.

Quando pensamos em doença, a interpretamos como um produto de uma causa que pode evoluir, retroceder ou estabilizar. Podemos cuidar deste desequilíbrio usando recursos aprendidos ao longo da vida, ou recorrer a um especialista quando percebemos que não conseguimos nos curar sozinhos.

As diversas áreas do conhecimento têm se desenvolvido cada vez mais, as especialidades se sofisticam, conhecemos melhor os mecanismos de funcionamento do corpo e os múltiplos avatares da mente. Porém, cada vez mais, os profissionais da saúde, entre médicos, psicólogos, psicanalistas, nutricionistas, são surpreendidos com perguntas de seus pacientes, como: Por que isso aconteceu comigo? O que eu fiz para ficar assim? Eu tenho cura?

A aprendizagem acadêmica ensina a reconhecer os mecanismos gerais das patologias, aponta direções de tratamento, mas não nos auxilia na árdua tarefa do cotidiano da nossa clínica. A singularidade de cada paciente obriga a rever nossos postulados, nosso campo de saber, e involuntariamente cometemos equívocos.

Na minha experiência como professora e psicanalista me defronto com profissionais competentes que são unânimes no reconhecimento de que o humano é um ser integral. Porém, na prática terapêutica essa verdade permanece cindida e dissociada.

Outro equívoco é que entendemos frequentemente a doença como um acidente indesejável que interfere no rumo da vida de um indivíduo. O tratamento passa a ser visto como um recurso que recupera o equilíbrio perdido. É o caso da concepção do senso comum de somatização, que explica as doenças orgânicas pela influência de uma força perniciosa psíquica interferindo no funcionamento do corpo. Assim, a psicoterapia passa a ser entendida como um bloqueio desta influência psíquica na evolução de uma doença. Para Chiozza, a doença aparece como um capítulo indissolúvel de uma biografia que completa a trama de uma história num conjunto mais amplo e com significado mais rico. Desta forma, a doença deixa de ser o acontecimento alheio que surge vindo de fora para transformar-se num drama que pertence inteiramente à própria vida pessoal. Tratar um sofrimento, quer se manifeste na área psíquica ou orgânica, implica no cuidado integral de um indivíduo, valendo da colaboração multidisciplinar a partir da compreensão e de pressupostos comuns.

Entender uma doença significa contextualizá-la na vida de uma pessoa, compreendê-la em suas diversas manifestações e integrá-la na sua biografia; ir mais além do que eliminar seus sintomas; decifrar seu sentido profundo para encontrar outras formas de expressão desse sofrimento, quando for possível. 

*Clarissa Silbiger Ollitta, psicóloga e psicanalista psicossomática, é supervisora clínica e  coordenadora do curso A Trama da Obesidade e o Programa de Estudos e Tratamento do Obeso (Presto), no Instituto Sedes Sapientiae. 

Tags: a partir, colaboração, compreensão, da, multidisciplinar, valendo

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