Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Instituto Machado de Assis

Wander Lourenço*

Na Ilha da Gigoia, às vésperas do Natal, com Mano Melo e as irmãs Márcia e Cláudia Buso, nós discorríamos sobre a possível influência literária da ficcionista Ayn Rand na obra de Clarice Lispector, quando se achegou sorrateiramente o compositor e produtor musical Nonato Buzar. Sentou-se um tanto taciturno, murmurou meia dúzia de palavras até pedir ao garçom uma refeição de arroz, feijão, peixe e salada, que enfrentou em vagaroso silêncio, enquanto o assunto esbarrava em Machado de Assis.

Entre um gole e outro de vinho, confesso que não me recordo muito bem como a boa conversa de uma hora para a outra se desviou de Rand e Clarice para o Bruxo do Cosme Velho. Ao vasculhar a memória, desconfio apenas que foi porque disse ao Mano Melo que, entre tantos escritores brasileiros, de Lima Barreto a Guimarães Rosa, sem citar os autores contemporâneos, considerava Lispector a mais inspirada discípula de Machado de Assis, não só pela evidência de diálogo entre o conto A cartomante e a obra A hora da estrela; e, sim, sobretudo, por sua incursão pelos meandros da alma humana. 

Foi quando o mestre Buzar interrompeu o almoço para mencionar que havia composto mais de duas dezenas de canções, algumas delas imortalizadas por Maysa, Cauby Peixoto, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga, Elis Regina, Wilson Simonal, Nana Caymmi e Milton Nascimento, e ainda assim sentia na pele a dificuldade de os artistas nacionais se difundirem no exterior, muito provavelmente no caso da letra de música e da literatura de um modo geral, em razão da dificuldade de acesso do público estrangeiro ao idioma português. Ao término da exposição, o bardo maranhense criador do já clássico Dez pras seis calou-se, deu mais duas ou três garfadas, pagou a sua despesa e saiu sem se despedir de nós, que, excitados pela instigante temática posta sobre a mesa do agradável restaurante à beira-rio, prosseguimos com o diálogo sobre a afirmação de uma identidade nacional por intermédio da língua portuguesa.  

Já em minha residência no Recreio, ao refletir sobre a questão aventada por Nonato Buzar, fui tomado de assalto por uma ideia de que seria primordial que o Brasil se fizesse representar por uma instituição brasileira que divulgasse o idioma português ao redor do planeta; e que o órgão responsável pela missão de difundir a “última flor do Lácio”, por países europeus, africanos e asiáticos, em homenagem ao grande gênio das letras pátrias, deveria se chamar Instituto Machado de Assis. Diante de tal concepção, comecei a conjecturar o método de formulação de um projeto que, com a eficácia de um hábil mascate ou caixeiro viajante de Arthur Miller, me fizesse sensibilizar as assembleias, confrarias, associações e grêmios recreativos, desde a Academia Brasileira de Letras (ABL), Fundação Getulio Vargas (FGV) e Casa de Rui Barbosa ao Ministério da Educação (Minc) e ao das Relações Exteriores, passando por instituições de fomento à pesquisa, tais como Capes, CNPq, Funarte etc, sem menosprezar o incentivo fiscal destinado às parcerias público-privadas (PPP). 

Ao esboçar a estratégia de divulgação, após breve pesquisa, descobri que o instrumento mais palpável para concretização do Instituto Machado de Assis seria a conjugação de forças de políticos e intelectuais, de modo a alavancar um cronograma de perspectivas conjunturais de ordem cultural, quiçá aos moldes dos institutos Goethe e Cervantes, assim como, à luz da experiência britânica, também haveríamos de criar a Companhia de Teatro Nelson Rodrigues. Por este raciocínio, a proposição cultural de preservação da língua portuguesa abarcaria um centro de referência linguística mundo afora, que se predispusesse a ensinar o idioma do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, a partir da contratação de profissionais habilitados por parâmetros acadêmicos, para o exercício docente no exterior através de concurso público.

Enfim, cabe encerrar a crônica com uma triste notícia: o menestrel Nonato Buzar não está mais entre nós para dizer se este seria o caminho apropriado a nos conduzir pela defesa de um patrimônio idiomático subscrito pela magnífica interpretação de um país inventado por Machado de Assis.     

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: a, cultural de, este, por, preservação, proposição, raciocínio

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