Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Universidade corporativa e o futuro dos treinamentos

Ricardo Devai*

Mais do que máquinas, estoques e tecnologia, uma empresa é formada por pessoas. Cada vez mais as organizações estão conscientes do real papel dos seus colaboradores e, com isso, reconhecem a necessidade de motivar e capacitar estes profissionais. Frente a este cenário, grandes empresas têm investido na criação de universidades corporativas, instituições de ensino que buscam treinar e desenvolver seus colaboradores, tornando-os mais críticos em relação ao seu próprio trabalho e mais responsáveis por buscar novas qualificações.

No Brasil, algumas empresas já trabalham com universidades corporativas. Existem, sim, alguns bons exemplos, mas infelizmente são poucos. A maioria das empresas cria uma espécie de “catálogo de cursos”: treinamentos que possuem um conhecimento a ser transmitido, mas que são pouco (ou quase nada) entrosados entre si. Grande parte, aliás, não tem práticas que levem o colaborador a adequar sua conduta ao pensamento da empresa. 

Uma universidade corporativa legítima atua como um verdadeiro gestor da educação nas empresas, pois consegue cobrir diferentes pontos dos treinamentos. O método garante e alinha os esforços empreendidos, padroniza os treinamentos para que seja possível medir os resultados entre as diversas escolas, otimiza recursos e reduz a redundância nos treinamentos, mantendo a mesma linguagem. A universidade corporativa ajuda a incorporar o conhecimento técnico e cultural da empresa.  

Um dos principais nomes da área, a professora e doutoura da USP Marisa Éboli explica em seu livro Educação corporativa no Brasil – Mitos e verdades (2004) que a educação corporativa pode servir como principal veículo de fortalecimento, consolidação, integração e disseminação da cultura empresarial. Muito utilizada por grandes corporações, a universidade corporativa é uma ferramenta excepcional. Ela motiva funcionários, repassa conhecimento, dissemina a cultura da empresa e ainda permite uma economia de gastos com os treinamentos convencionais. A universidade garante e alinha os esforços de todos os treinamentos, padronizando-os e permitindo ainda comparar os resultados entre eles. 

Nos Estados Unidos, podemos destacar os setores de automobilismo, tecnologia, saúde, serviços financeiros, telecomunicações e varejo como destaque na criação das universidades corporativas. No Brasil, as primeiras começaram a aparecer na década de 90, devido a uma maior competitividade entre as empresas. 

Ainda de acordo com Éboli, existem dez etapas fundamentais para a elaboração de um projeto com este perfil: é preciso envolver a alta cúpula da empresa, definir o que é essencial para o sucesso, diagnosticar as competências do grupo, alinhar a educação às estratégias do negócio, definir público alvo, ajustar o programa com as necessidades definidas, conceber os programas educacionais (presenciais e/ou virtuais), avaliar a tecnologia de educação disponível, criar um ambiente e uma rotina de trabalhos propícios à aprendizagem e estabelecer um sistema de avaliação de resultados. 

Desenvolver uma universidade corporativa é um trabalho extremamente gratificante, mas não é tarefa fácil. Já trabalhei em alguns projetos deste tipo e posso afirmar com segurança: é uma experiência que exige investimento, tempo e organização. Ela precisa criar um ambiente que repasse o conhecimento da empresa, mas que também acene para um crescimento do seu aluno/colaborador. Não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que um trabalhador vai dedicar algumas horas da sua semana para estudar simplesmente porque isso é o melhor para a empresa. Todos desejam ter seu trabalho reconhecido para, com isso, conseguir ascender na sua profissão. E a universidade precisa servir como inspiração para este pensamento.

Uma maneira de incentivar este desejo é configurar a universidade corporativa como uma instituição de ensino regular, uma faculdade ou universidade. Devem-se criar séries, classes, provas e regulamentos. Os alunos precisam conhecer quais são as metas a serem alcançadas e as regras a serem seguidas. A cada nova etapa vencida, o ideal é reconhecer todo o esforço e os bons resultados conquistados. Considero no mínimo simpático realizar uma entrega de certificados ou uma comemoração que simbolize uma formatura. A presença de executivos superiores também é uma boa ideia. 

Por mais que eu aprecie e incentive as empresas a criarem suas próprias universidades, preciso ser realista quanto ao atual cenário brasileiro: muito trabalho ainda precisa ser feito. Tudo depende de estruturação: sem uma organização prévia da própria corporação, nenhuma universidade corporativa irá trazer os resultados esperados. 

E somado a isso, o mercado de trabalho passa por um período complicado, as empresas optam por ter um quadro de funcionários cada vez mais enxuto. As pessoas precisam desempenhar diversas funções e não têm tempo para refletir. Enfim, falta tempo para planejar uma universidade corporativa.

Mais do que oferecer treinamentos, a universidade corporativa é uma evolução da cultura de aprendizagem dentro do mercado de trabalho. No Brasil ainda há muito a ser desenvolvido, mas com o empenho dos profissionais de RH vejo que é possível se assim o quiserem. 

* Ricardo Devai é diretor da élogos Brasil - empresa especializada em treinamento de colaboradores e reconhecida por aplicar metodologias inovadoras no processo de ensino-aprendizagem.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

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