Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O Rio de Janeiro, o Carnaval e o turismo

Bayard Do Coutto Boiteux*

Devagar, o Carnaval vai nos deixando, e a cidade começa a se preparar para viver um ano novo, o da realidade. Foram quase dez dias de festejos momescos, que podem se dividir em grandes dois momentos: o espetáculo da passarela e o Carnaval de rua.

A passarela, como sempre, apresentou um show de Primeiro Mundo. Organizado, cheio de cores, de alegria, de sons, de beldades e de tristeza, dos que foram rebaixados. Os desfiles ganham anualmente a marca do profissionalismo e da organização, com grandes patrocinadores, que aos poucos foram tirando o poder supremo dos bicheiros, que voltaram este ano à passarela para demonstrar que ainda estão vivos e fazem parte da engrenagem fantástica das escolas.

Por outro lado, o Carnaval de rua, que foi crescendo desordenamente, sem infraestrutura de apoio, criando mijões e mijonas, ao longo dos locais por onde passam, gera uma confusão enorme para a população anfitriã das redondezas. A alegria é grande e nos encanta, mas falta respeito ao espaço compartilhado: invadem jardins, retiram árvores, tomam banho nos lagos e pulam dentro dos transportes pblicos, como se estivessem brincando Carnaval. Devo confessar que fiquei amedrontado com as cenas a que assisti no metrô e na Avenida Rio Branco. Eram pessoas bêbadas, inconvenientes e sem o mínimo conceito de civilidade. A cidade precisa rever a quantidade de banheiros pblicos, insuficientes, e a presença das forças de segurança, que em alguns horários pareciam não estar presentes.

Ainda mais, a  greve dos garis da Comlurb, embora em momento inoportuno, na visão dos que trabalham com turismo, nos fez lembrar da importância que desempenham os heróis da limpeza carioca, com salários baixos, e como a população é descuidada e despreparada para manter o Rio limpo. Também no âmbito dos serviços públicos, o metrô que anunciou operação 24 horas teve escadas rolantes desligadas e porta única de saída em estações como a General Osório, responsável por um dos dos maiores carnavais de rua.

Tivemos um número reduzido de turistas estrangeiros, e a ocupação média dos hotéis foi de 78%. Vivemos a era do surreal nas diárias hoteleiras, que são mais caras de 30 a 40% do que as de hotéis da mesma categoria em países de moeda forte. O brasileiro, infelizmente, continua aceitando pagar preços desproporcionais, e assim vai-se mantendo a alta, que ocasiona restaurantes de frutos do mar na área de Guaratiba, que chegam a cobrar trezentos reais por um prato, sem a contrapartida de uma prestação mínima.

Para piorar o surrealismo, a maior parte dos museus resolveu fechar as portas, retirando da oferta turística um importante diferencial e reduzindo a cidade aos atrativos naturais e ao Carnaval. Faltou talvez um diálogo maior entre cultura e turismo, e sobretudo o entendimento de que durante grandes eventos a cidade recebe o maior contingente de turistas.

O Carnaval ainda dura até domingo, mas com força já reduzida. É um case para ser analisado pelas autoridades, para que problemas de transporte publico, fechamento de museus, preços surreais, como também o da lanchonete na divisa Copacabana/Ipanema, que aumentou em 50% os preços para turistas estrangeiros e os brasileiros que reclamavam, já que habitués voltavam a ter os preços de outrora praticados.

Não adianta uma passarela, que completou 30 anos, como case de excelência, se no dia do aniversário da cidade, colapsos no trânsito, cada vez mais caótico, fez turistas esperar três horas no aeroporto Tom Jobim por um táxi e tornou o entorno da rodoviária impraticável. São alguns exemplos que mostram que o Rio precisa ser melhor pensado se desejar continuar sendo sede de grandes eventos.

Sou um apaixonado nato pela Cidade Maravilhosa, mas conclamo a poulação a varrer melhor os ares inoportunos que aqui querem ficar e que o trade turístico se posicione melhor e com mais ênfase sobre a construção de uma cidade sustentável, parando de acreditar que turismo é participar de eventos promocionais da categoria, saber quem é o novo gerente da empresa tal e quanto fatura a empresa x. Vamos pensar turismo, meus caros...

*Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário e pesquisador, é escritor e preside o site Consultoria em Turismo. - www.bayardboiteux.com.br

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