Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Direitos femininos: entre o pessoal e o coletivo

Wanda Camargo*

Sigmund Freud, pensador que deu resposta a muitas das perplexidades humanas, formulou uma pergunta ainda não respondida: o que querem as mulheres? Nem mesmo estas conseguem elucidar a questão de modo satisfatório; exigimos direito à igualdade, mas desejamos respeito às diferenças, o que é compreensível.

As mulheres lutaram bravamente, até mesmo com riscos de perda de liberdade e de vidas, para conquistar igualdade de prerrogativas. Sem considerar a significativa parte do mundo que ainda está em trevas, democracias ocidentais já reconhecem, pelo menos formalmente, esta igualdade, e expressivo número de mulheres já a usufrui em termos reais.

Homens e mulheres têm os mesmos direitos, mas não são, e nem devem ser, iguais. A mulher tem o privilégio e a responsabilidade da maternidade, e, possivelmente, a maior parte dos encargos para a manutenção da vida e o desenvolvimento físico e emocional da criança, embora a participação dos pais, e da comunidade, seja essencial para a boa formação. 

Evidentemente, não se espera que uma mulher renuncie à vida profissional em função da maternidade; as duas coisas são igualmente importantes, em que pese ser possível boa qualidade de vida sem uma delas: algumas mulheres renunciam à carreira pela educação dos filhos, e são felizes, outras renunciam a ter filhos, assumindo completamente a vida profissional, e, por incrível que possa parecer a alguns, são muito felizes também. No entanto, é perfeitamente possível conciliar as duas escolhas, desde que com sensatez e boa organização de tempos e prioridades.

Assim, é com surpresa que vemos hoje algumas mulheres renunciando a um direito duramente conquistado: a licença maternidade em sua integralidade. Esta atitude normalmente é justificada pela dedicação ao trabalho, preocupação em perder posição na hierarquia da empresa, ficar desatualizada, medo de ser demitida ao final da “folga”, ou até mesmo para se afastar de algumas obrigações da maternidade.

Direitos não usados tomam aparência de privilégio, devido à liberalidade e não à obrigação do empregador. Renunciar parece demonstrar que esta licença não é importante, e que apenas preguiçosas ou desadaptadas ao trabalho a utilizam. E há ainda o aspecto, muito sério, da influência que a atenção materna tem no bom desenvolvimento da criança.

À medida que se aprofundam estudos dos profissionais da educação ou da saúde física e mental, torna-se evidente a importância da primeira infância na constituição de uma personalidade equilibrada, estável e saudável. O aleitamento materno por tempo suficiente traz contribuição inegável para a vida sadia, reduzindo futuras sobrecargas nos sistemas estatais ou privados de saúde pública, além de fortalecer vínculo entre aquele que cuida e a criança, fatores indispensáveis para comportamento mais inclusivo, maior facilidade para o letramento e melhor visão de mundo, dos quais se beneficia o sistema educacional, que pode aspirar a mais qualidade e efetividade no processo de ensino.

Ainda não conseguimos substituto eficiente para uma presença amorosa e constante nos primeiros meses de vida de uma criança, e a licença maternidade representa um investimento mínimo para a constituição da cidadania.

* Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).

Tags: direito, escolhas, estudos, freud, mulheres

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