Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

SOS Arraial do Cabo

Wander Lourenço*

Aproveito o período de Carnaval para registrar que, desde que terminei a construção de um chalé de madeira e livros, há quase cinco anos frequento anonimamente o município de Arraial do Cabo, magnífico patrimônio natural localizado na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro. Todavia, o refúgio ideal para um período de leitura e redenção à natureza tornou-se alvo de preocupação do cronista diante da realidade urbana e social, que se faz presente por intermédio da degradação do meio ambiente oriunda de ocupações irregulares morro acima sem tratamento de água e esgoto, a esmagar a flora, a fauna e a linha do horizonte. Com a cruel favelização, o fato é que a paradisíaca antiga província ou distrito de Cabo Frio tornou-se alvo de observações depreciativas dos seus moradores, conforme se constata na afirmação de uma comerciante que me disse com certo tom de inconformismo irônico e resignado: “– Arraial do Cabo só presta mesmo do mar para dentro, meu filho, porque do mar para fora nem eu presto para nada.

Diz que o processo de empobrecimento da cidade natal da linda atriz Flvia Alessandra se deu com a decretação de falência da Companhia Nacional de Álcalis, em 2006. Logo, após uma década de desemprego e abandono político, um dos balneários mais privilegiados do país, que deveria se reerguer através do turismo de alto nível, se restringe a se equilibrar com as migalhas adquiridas por deploráveis gestões administrativas, enquanto Búzios se beneficia da inépcia e da negligência da prefeitura cabista para arrecadar milhões de reais. Entretanto, a responsabilidade não se restringe ao âmbito municipal, de vez que o processo de remoção da comunidade, que se alastra por sobre o cemitério e avança em direção à Praia do Forno, deveria ser uma providência a ser tomada pelo governador Sérgio Cabral Filho.

Creio que o primeiro passo a ser dado para a recuperação do espaço físico de Arraial do Cabo seria em direção ao ordenamento urbano, com a solicitação de ingresso por parte do governo estadual ao programa Minha Casa, Minha Vida, para edificação de imóveis de dois e três quartos no terreno da própria Álcalis, de modo a alocar decentemente os habitantes da encosta do morro com dignidade e cidadania; e possibilitar o reflorestamento com um mirante com vista panorâmica para o Oceano Atlântico. Outra questão que muito incomodará o turista que se resolver por visitar a terra de Flávia Alessandra, além dos inmeros e oportunistas marcadores de velocidade, vem a ser o acesso ao município, uma vez que o visitante que optar por percorrer a estrada que corta Praia Seca e não a Via Lagos irá se deparar com inúmeros obstáculos, que abarcam desde a falta de acostamento a consideráveis crateras a se insinuar ao longo da pista. Por que não se arquitetar em parceria com o Ministério do Meio Ambiente uma rodovia-estrada — sugiro batizá-la Darcy Ribeiro —, que percorra com segurança a deslumbrante orla entre Itaipuaçu, Maricá, Saquarema, Araruama e Arraial do Cabo, de Itaúna à Praia Grande, passando por Praia Seca, Pernambuca, Figueira e Monte Alto, com hostels, pousadas, hotéis, bares, quiosques e restaurantes à beira-mar, transportando para outras paragens legais as moradias impróprias erigidas na areia da praia em plena área de preservação ambiental, pertencente à APA de Massambaba?

É triste perceber que um lugar que seja margeado por uma água com tonalidade azul-turquesa, que se equipara ao mar de Fernando de Noronha ou Caribe, propícia inclusive à pesca submarina e ao mergulho profissional, seja tido como um paraíso desperdiçado por déspotas incautos, em razão da inabilidade e incompetência dos execráveis governantes aldeões que, inglórios e desembestados, assistem à sórdida devastação de uma localidade abençoada por Deus que, decerto, reservou a sua mais límpida e generosa inspiração, quando criou as Prainhas, avistadas de um observatório celeste chamado Pontal do Atalaia.    

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário. Seus livros mais recentes são O enigma Diadorim (Nitpress) e Antologia teatral (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

Tags: área, mergulho, paraiso, profissional, razão

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