Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

Na Ucrânia o povo já perdeu

Sergiano Silva*

A situação política da Ucrânia é hoje, sem dúvida, única dentre os países que vêm experimentando sublevações civis nos últimos anos. Ao que semanas atrás todos os analistas falavam em guerra civil seguiu-se um panorama geopolítico agravante capaz de fazer explodir uma guerra que envolve o país já fatigado, a Rússia e a Otan. Além disso, o perigo da disputa de poder interna ainda se mantém graças ao grupo paramilitar Setor de Direita (Praviy Sektor), que insiste em tomar Kiev para si.

Na verdade, a questão dos grupos neonazistas deu o tom da escalada litigiosa entre o Kremlin e Kiev. É que há meses este tem sido o teor da propaganda russa a respeito do que andava acontecendo no país vizinho. Diga-se que, a par da verdade, esse era apenas um pretexto para possíveis ameaças de intervenção militar dentro do país que estava prestes a destituir o governo de Viktor Yanukovich, aliado de Vladimir Putin. Este realmente não se importaria em combater grupos antissemitas de direita que defendem a família, a religião e são contra direitos de minorias. Moscou pensa apenas estrategicamente em manter o Mar Negro sob o domínio de suas frotas marinhas. Daí a crise na Crimeia, onde a maioria é de etnia russa, cai como uma luva para esse intento.

O ponto chave da atual situação de conflito envolvendo a região da Crimeia se encontra historicamente. Como disse recentemente o historiador Dorenildo Mattos, Eric Hobsbawm estava errado, o longo século 20 não acabou ainda. Resultado de anos de rearticulações geopolíticas que remontam à Primeira Guerra Mundial passando pela repressão do período soviético, a Ucrânia passa pelo risco iminente de desmembramento do território em dois, um lado de maioria ucraniana e pró-Ocidente e outro de maioria russa pendendo para Moscou.

Diante deste quadro, o que se esperar de um país assolado por uma guerra interna e outra premente externa? Primeiramente, seria injustiça reduzir as mobilizações populares que surgiram desde novembro do ano passado a uma imposição da extrema direita. Em tempos de convulsão social os ratos saem dos esgotos, e na Ucrânia não seria diferente, como aconteceu aqui mesmo no Brasil ano passado (diga-se de passagem, um caso especificamente paulista). E é verdade que, como explica Volodymyr Ishchenko no The Guardian, é muito cedo para o Setor de Direita se sublevar contra o governo porque lhe falta apoio suficiente para tanto.

Por outro lado, o partido nacional socialista Svoboda controla já alguns ministérios do governo interino.  No entanto, ao que parece, o novo governo deve seguir por enquanto a agenda neoliberal com suas imposições de cortes em gastos públicos e congelamento de salários, tornando  a crise social mais aguda. O que seria uma revolução está sendo uma mera troca de elites, resumiu Ishchenko.

Uma possível guerra contra a Rússia debilitaria o governo interino ao ponto de acirrar mais ainda a luta pelo poder da facção de direita ultranacionalista. Segundo Benjamin Bidder, do Der Spiegel, a estratégia de incorporar a Crimeia enfraqueceria as forças moderadas da Ucrânia, abrindo caminho para os nacionalistas que, se assumissem o controle total do poder, buscariam vingança contra o Kremlin. A situação, portanto, é delicada. Se as únicas opções para a Ucrânia são o neoliberalismo impopular, o fascismo ou imperialismo russo, só de uma coisa já podemos de antemão ter certeza: o povo ucraniano é que vai sair perdendo.

*Sergiano Silva é historiador (PUC-Rio)

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

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