Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

John Kerry e a nova política externa americana

A cargo do Secretaria de Estado, o ex-senador colabora para o acordo entre os países

Ricardo Luigi*

Uma figura política que tem se destacado nos Estados Unidos é o secretário de Estado John Kerry, capitaneando a nova política externa americana. Sua atuação tem contribuído bastante para o acordo entre os países e a construção de uma ordem mundial menos conflituosa.

Longe de ser um gênio — suas notas medianas em Yale comprovam isso — é um político no sentindo mais genuíno da palavra. Na etimologia da palavra política, entre as diversas origens gregas concorrentes temos o termo "politikè", uma contração de “polis” com “technè”, ou, melhor dizendo, a arte política. É nesse sentido que o ex-senador tem se notabilizado.

Desde a época de faculdade Kerry já participava da militância política. Mas a participação na Guerra do Vietnã o jogou, em todos os sentidos, para a frente da batalha. Depois de servir à Marinha americana nos rios sul-vietnamitas, em 1971, já como veterano, foi ao Comitê de Relações Exteriores do Senado pedir o fim da guerra.

A consolidação da sua vida política, entretanto, veio na década seguinte. Nos anos 80 foi vice-governador por Massachusetts, estado que o elegeu poucos anos depois para senador. Como senador, manteve forte atuação em favor de causas sociais e em benefícios dos militares.

Apesar de católico, nunca hesitou em se colocar em posições conflituosas com sua fé, sendo favorável ao aborto e defensor dos direitos dos homossexuais. No Senado também chegou a ser presidente da comissão de relações exteriores. Concorreu à Presidência em 2004, mas não conseguiu alcançar o topo da carreira política.

O seu ápice veio justamente ao assumir o Departamento de Estado dos Estados Unidos, equivalente americano ao nosso Ministério das Relações Exteriores, em 1 de fevereiro de 2013. Substituiu Hillary Clinton, que teve uma longa e desgastada passagem pela Secretaria, com algumas interpretações equivocadas de um cenário internacional muito conflituoso.

Desde que estreou no cargo, John Kerry também tem enfrentado grandes desafios. O primeiro foi costurar a retomada das negociações entre Israel e Palestina. Logo depois se sucederam o conflito na Síria, negociações sobre o programa nuclear iraniano, e, já chegando em período recente, as questões envolvendo Rússia e Venezuela.

Em relação à Rússia declarou que os Estados Unidos não estão interessados em uma nova Guerra Fria. Quanto à Venezuela, afirmou que a tensão entre os países já se estendeu demasiadamente, e que o governo americano está disposto a promover alterações na política externa referente aos venezuelanos.

De acordo com John Ikenberry em seu último livro, Liberal leviathan, a administração Obama tem feito de peça central da sua política externa a restauração da liderança da hegemonia liberal norte-americana. A “doutrina Kerry” foi mais contundente nesse aspecto que sua antecessora.

Embora menos bélica, menos militar, a nova política externa dos EUA é bem mais agressiva e contundente que a praticada por Hillary Clinton. Apesar de alguns equívocos que os republicanos não cansam de comentar, Kerry é mais assertivo e vigoroso.

* Ricardo Luigi, doutorando em geografia pela Unicamp, é professor universitário e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais. - ricardoluigi@cenegri.org.br

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

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