Jornal do Brasil

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

A verdadeira paixão

Tarcisio Padilha Junior *

Beethoven foi o primeiro a deixar a música falar a linguagem até então proibida da paixão. Para expressá-la, ele encontrou um novo meio: destacava certos pontos de sua trajetória e os interpretava com grande determinação, de modo que os ouvintes pudessem adivinhar todo o percurso.

O artista só pode se relacionar com seus contemporâneos na medida em que contribua para a perenidade de sua arte. De fato, discípulos que Beethoven formou, músicos aos quais dirigiu uma palavra, plateias que o acompanharam na seriedade de seu trabalho, atestam o alcance de sua obra.

Um estado da humanidade, de sua comunidade, de seus costumes, de sua organização de vida e do conjunto das instituições, que possa prescindir do artista inigualável talvez não seja impossível. Porém, precisamos de sua arte porque nos tornamos, diante do que expõe, aqueles que podem ver.

Com o genial compositor alcançamos o grau supremo da sensação, e somente nessa atmosfera nos sentimos de novo na livre natureza e no reino da liberdade, escutamos a cada passo forte do herói o eco estúpido da morte e compreendemos em sua indizível proximidade o supremo atrativo da vida.

Transformados em homens trágicos, regressamos à vida com uma disposição de alma estranhamente sossegada, com o sentimento novo da segurança, como se nós, em meio aos maiores perigos, tumultos e êxtases, tenhamos realmente encontrado o caminho do que nos é familiar.

Quando procurava em si o que mais profundamente vinha ao encontro de sua necessidade, Beethoven percebia que só poderia ser a música, que dá a ver sua vivência mais íntima e própria. Ele experimentava a originalidade, inesgotável ainda hoje em nossa cultura, a força sonora de suas raízes.

A verdadeira paixão, na vida, não fala por sentenças. Sua música transmite imediatamente as profundas emoções dos personagens dos dramas para a alma dos ouvintes, e assim lhes propõe uma compreensão e uma vivência inteiramente novas, como se os sentidos subitamente se espiritualizem. 

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, Jornal, Sociedade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.