Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

O que ouvir no Carnaval

Adriano Gonçalves*

Carnaval chegou, e com ele a correria na preparação da fantasia, queimar as gorduras que ainda insistem em permanecer em nossa área abdominal, adquirir abadás e literalmente se equipar para curtir o barulho da festa. Sim, ou não? Muitos sins, mas também muitos nãos. Interessante que a cada ano cresce o nmero de pessoas que fazem uma opção diferente no Carnaval, pessoas que escolhem um jeito diferente para viver esta festa “tão brasileira”. Gente que aproveita os bons dias de feriado para, ao invés de se “liberar nos barulhos dos trios” entrar no “barulho dos átrios”.

Gente que prefere gastar tempo escutando o que o coração deseja frente à vida, pois, afinal de contas, o ano apenas começou, e muita coisa já aconteceu. As promessas de fim de ano precisam ser reavaliadas e metas realinhadas. E, por que não gastar estes dias se escutando? A opção que muitas pessoas fazem de tirar uns dias de retiro tem conquistado cada vez mais adeptos. Alguns escolhem retiros que ainda garantem uma alegria de curtição ao bom tempero da sobriedade cristã, outros já se refugiam em mosteiros e lugares mais reclusos que oferecem o barulho do silêncio. Interessante que muitos de nós, tão cansados de uma vida barulhenta, queremos nestes dias escolher pela calmaria de estar conosco mesmo, dar ouvidos ao que rola em nosso coração e ao que nossa alma deseja. E, te garanto, não nos deixa na ressaca do dia seguinte.

Muitos poderão pensar que isto é alienação ou até mesmo fuga do mundo. Não é bem por aí, não! Pois, entrar dentro de nós mesmos é estar disposto a se lançar na avenida de nossa história, é aprender a dançar na vida de nossa consciência o “samba” que nos pede ginga frente aos desafios de sermos o que somos. É muitas vezes ter que colocar as mãos nos ouvidos ao ouvirmos o barulho de uma vida que levamos e, às vezes, ficamos surdos e incapazes de entender que precisamos ter harmonia entre o compasso do que acreditamos e o que de fato vivemos.

Dias assim nos fazem tirar a fantasia que vestimos durante muito tempo e entender que, para o sucesso de uma vida acontecer, as máscaras precisam ser lançadas ao chão, pois elas duram momentos e nos tiram a oportunidade do para sempre feliz.

Quem pensa que estes dias de retirada no Carnaval não trazem som, música e barulho está enganado. Pelo contrário são momentos certos, onde se faz a apuração dos votos de sua vida, e nesta hora é preciso apurar bem cada quesito. A Bateria de suas escolhas precisa estar em consonância com seu samba enredo; este precisa ter na letra a riqueza poética de alguém que sabe levar a vida e não deixa a vida simplesmente te levar. É preciso que tenha beleza, bom gosto e adaptação à Melodia que, às vezes, precisa mudar de notas para acompanhar o compasso do coração.

Retiros assim nos colocam frente a outros critérios de análise; frente a nossa performance da vida a harmonia , ou seja, o entrosamento entre o ritmo da vida e o canto dos lábios que escolhe o como viver, e só assim seremos capazes de viver uma verdadeira evolução, teremos uma comissão de frente que diz dos valores que temos e assumimos viver, seremos os mestres-salas de nossa história e porta-bandeiras onde traz estampada uma vida autêntica e sem fantasias, cada adereço e alegoria de nossa história farão parte do que temos como essencial para viver.

De fato, estes momentos de parada nos colocam na avenida de possibilidades e nos fazem cada vez mais eternos aprendizes!

E te deixo a dica: por que não gastar tempo ouvindo o samba-enredo de sua vida? Que tal levá-lo à apuração de votos dados por você mesmo?

Se prepare! Há um canto, há uma canção a ouvir! Tamu junto!

*Adriano Gonçalves, missionário, é formado em filosofia, acadêmico em psicologia e apresentador do Programa Revolução Jesus na TV Canção Nova, além de autor de três livros: 'Santos de calça jeans', 'Nasci pra dar certo!'  e 'Quero um amor maior'. 

Tags: adereço, Avenida, canção, canto, fantasias, história

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