Jornal do Brasil

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Em busca do mártir ideal

Vitor Sapienza*

São dois fatos antigos, muito representativos e de repercussão mundial: os assassinatos do sertanista Chico Mendes e da missionária Doroty, ocorridos em regiões distantes dos grandes centros. Em ambos os casos havia interesses na disputa pela terra. E todos sabem o desgaste que isso provocou na imagem de nosso país. Trazendo o problema para as regiões urbanas, recordemos outros fatos mais recentes, ocorridos no Rio de Janeiro, os assassinatos do jornalista  Tim Lopes e, agora, do cinegrafista de Rede Bandeirantes de Televisão.

Por uma simples coincidência, os fatos citados ocorreram fora de São Paulo, mas poderiam ocorrer em qualquer canto deste país. Há muito tempo aceitamos a violência como rotina, e apenas vai às manchetes quando o atingido pertence ao rol das personalidades mais conhecidas, ou integram este ou aquele segmento que tem força ou poder para erguer a voz. Nos demais casos, onde os atingidos são o povão ou policiais, salvo raras exceções, o crime servirá  apenas para alimentar as estatísticas.

Esse quadro, que retrata bem a violência em nosso país, nos dá a oportunidade para alguns questionamentos: até quando a situação persistirá? Quando teremos, de fato, um controle rígido nas fronteiras, impedindo a entrada de armas e drogas em nosso país? Quando as nossas leis serão adequadas à nossa realidade? Quando a impunidade deixará de ser uma característica de nosso país?

Até agora, crimes como os citados acima serviram apenas para motivar protestos por parte de parentes e amigos dos envolvidos, e em este ou aquele caso  chamaram a atenção de correspondentes das agências de notícias do exterior. Fora isso, ficamos à mercê de novas tragédias até que outras, de igual ou superior proporção, consigam mexer com os nossos brios.

A verdade é que somos movidos a pedal, quando o nosso veículo precisa de propulsão nuclear. Precisou o sangue de muitas mulheres até que fizéssemos uma legislação específica, punindo os agressores. Nos crimes de pedofilia, praticamente agora é que começamos a implantar medidas rigorosas; nos crimes de internet, ainda estamos engatinhando. No combate ao tráfico internacional, estamos muito aquém do necessário. O mesmo acontece no tráfico de armas. Isso, sem contar o atraso na nossa legislação e nas falhas do nosso sistema penal.

Assim, dentro de nossa mania de questionar, fica a mais contundente das perguntas: qual será o mártir ideal para que possamos, de fato, dar uma guinada em nossa postura e, de uma vez por todas, colocarmos o país nos eixos? E qualquer que seja a resposta, ela será muito dolorida para nós, como sociedade civilizada. E nesse dia, certamente, estaremos vertendo lágrimas inesquecíveis, fruto de nossa omissão e do hábito de se jogar o lixo sob o tapete. Resta saber apenas qual é o tamanho do tapete, ou o volume que ele consegue encobrir.

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br

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