Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

O Memorial do Samba e a sua academia

Wander Lourenço* 

Ao aportar em Alfama, indaguei ao taxista angolano chamado Martinho, em homenagem ao célebre sambista de Vila Isabel, qual seria o lugar mais apropriado para assistir a uma apresentação do gênero musical mais cultuado pelos portugueses. Desconfio que tenha recebido uma das mais óbvias respostas destinada a um turista no bairro boêmio lusitano: Museu do Fado. Agradeci a informação, e, após pagar a corrida, atravessei a rua, sentei-me na primeira adega ou tasca que avistei e pedi para degustar um vinho da casa diante da histórica edificação portuguesa. 

Ao admirar o prédio que abriga o Museu do Fado, apercebi-me de que, na Cidade Maravilhosa, não seria tão fácil responder a tal pergunta de um visitante estrangeiro, que se resolvesse a prestigiar um espetáculo de samba de raiz. Quiçá, a resposta imediata fosse: Lapa; porém, creio que a tradição das rodas de samba, do jongo, macumba e do partido alto exigiria do informante carioca algo mais genuíno, em se tratando de Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Sinhô, Ismael Silva, Noel Rosa e Cartola. Sob um luar de inverno lisboeta, imaginei um sítio que se construísse no bairro do Estácio de Sá, batizado de Memorial do Samba, em comemoração aos quatrocentos e cinquenta anos da São Sebastião do Rio de Janeiro, em 2015.  

Entre a Copa do Mundo (2014) e a Olimpíada (2106), este espaço cultural abrigaria um conservatório em que se ensinasse história e o domínio dos instrumentos originários do gênero de origem luso-africana, além de um teatro-auditório para simpósios e seminários, uma concha acústica e a Academia Brasileira do Samba. Esta agremiação de bambas, esboçada nos moldes da Academia Brasileira de Letras (ABL), composta por quarenta representantes imortais da batucada, que se reuniriam às quintas-feiras para a cachaça dos cinco, a começar por Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, Monarco, Elton Medeiros, Nei Lopes, Hermínio Bello de Carvalho, Chico Buarque de Hollanda, Wilson Moreira, Beth Carvalho, Aldir Blanc, Tia Surica, Paulo César Pinheiro, Alcione, Almir Guineto, Zeca Pagodinho etc, em harmonia com compositores mineiros (Lupicínio Rodrigues, patrono) baianos (João Gilberto, Riachão) e paulistas (Demônios da Garoa, Carlinhos Vergueiro), do ritmo mais brasileiro por excelência. Com a inauguração do Memorial do Samba e a sua academia, a cidade do Rio de Janeiro abrigaria uma universidade e um centro de pesquisa internacional, com pesquisadores estrangeiros convidados para divulgação da arte musical de Tia Ciata, a partir de conferências-shows dos baluartes de Mangueira, Portela, Salgueiro, Império Serrano, Unidos da Tijuca, entre outras tantas outras agremiações fluminenses. 

Ainda sobre a Academia Brasileira do Samba, até para evitar o constrangimento sofrido por Martinho da Vila, que não recebeu sequer um voto dos membros da ABL – ao que parece o ato de pedir votos por telefone através da esposa soou aos confrades acadêmicos como empáfia ou arrogância –, deverão ser desapropriados imóveis da região do Estácio, até mesmo como revitalização da área assim como ocorrera com a Praça Mauá e o Morro da Conceição e sua Pedra do Sal. Para composição do quadro de expoentes se escolherão quarenta patronos das cadeiras a serem ocupadas pelos sambistas imortais, como, além dos já citados, Heitor Villa-Lobos, Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolim, Ary Barroso, João de Barros, Herivelto Martins, Orestes Barbosa, Cyro Monteiro, Geraldo Pereira, Mário Lago, Adoniran Barbosa, Candeia, Zé Keti, Natal, Wilson Batista, Ataulfo Alves, Manacéa, Silas de Oliveira, Carlos Cachaça, Dorival Caymmi, Jair do Cavaquinho, João Nogueira, Luiz Carlos da Vila e tantos mestres da folia dos salões de gafieira e do Carnaval.

Afinal, estes mestres sambistas seriam prestigiados por sua imprescindível contribuição ao gênero musical que, se não deu nome ao país como o afamado pau de tinta, decerto se consagrou como representação mundo afora da alma do povo brasileiro. Por isto, parodiando Ismael Silva, encerro a crônica com a canção Antonico: “Seu Eduardo, vou lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade...".

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF e pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

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