Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

As incongruências da Copa no Brasil

Bayard Do Coutto Boiteux

Sempre torço pelo sucesso do turismo no Brasil. Sou daqueles que procuram sempre entender a importância da atividade e da captação de eventos, para nosso país. Agora, a Copa tem me deixado de cabelos no ar. Não estou conseguindo entender o que tal evento vai realmente trazer para o Brasil, começando com a construção de elefantes brancos, como o novo estádio de Brasília, que não teria times para colocar dentro do mesmo  nem  em um quarto de sua capacidade. Achar que assim estamos investindo no esporte é de uma irresponsabilidade nunca vista, sobretudo levando em consideração todos os problemas que a capital e seu entorno passam nas áreas de educação e saúde. Outro exemplo é Manaus, com mais um estádio dimensionado apenas para um atendimento pontual. Fica muito difícil entender que somas astronômicas, oriundas de recursos públicos, tenham servido para atender a pré-requisitos da Fifa, que deveria se envergonhar de compactuar com tal descaso com a realidade social brasileira.

O Brasil foi o país que mais tempo teve para se preparar para o evento, inclusive a França e a Africa do Sul que terminaram as obras com antecedência, mas a nossa burocracia impediu, por razões que a razão desconhece, que tivéssemos um planejamento mais racional. Fora as cidades que são ameaçadas, após o início das obras.

Por outro lado, há um aproveitamento momentâneo para colocar em prática o surrealismo dos preços. A resposta não tem sido a esperada por parte dos operadores de receptivo e da hotelaria, que se empenhou na construção de novos hotéis, que passam por índices de ocupação bem menores dos que os almejados, quando dos investimentos. E o governo lança campanha de que o Brasil é o melhor destino do mundo para férias. Sou apaixonado pela cidade onde vivo e não troco outra vez o Brasil por nenhum outro país, mas sinto que estamos distantes de uma excelência necessária em função da competitividade internacional.

A população anfitriã, amante do futebol, se tornou em percentual elevado contrária ao evento, sentindo que os investimentos em áreas cruciais foram esquecidos, e partiu para as ruas para manifestar seu descontentamento. Tais manifestações, que deveriam se realizar em processo de tranquilidade, acabam em tumulto e destruição do patrimônio publico, levando aos quatro cantos do mundo a imagem da insegurança. A policia, às vezes despreparada, acaba reagindo com violência, como tem acontecido em São Paulo. O mundo acaba percebendo uma falta de preparo para lidar com o descontentamento e gera editoriais polêmicos, que ficam sem resposta de nossas autoridades. Enfim, será que teriam respostas?

 Esperamos que pelo menos a promoção institucional e mídia espontânea proporcionadas pela Copa ajudem na divulgação do destino Brasil e de suas cidades receptivas. Mostrar que gostamos dos turistas já faz parte de nossas vidas, mas precisamos melhorar a percepção de cada morador de cada cidade, tornando-o um anfitrião nota dez. O evento ajuda, devo confessar, na percepção nacional do turismo também.

Vamos aproveitar o pouco tempo que nos resta para providências contundentes nos aeroportos, nas estradas, nos restaurantes, por exemplo, e parar, de uma vez por todas, de nos autopromovermos como melhor destino do mundo. Somos, com muita honra, país hospitaleiro e cheio de belezas naturais, mas infelizmente com divergências sociais marcantes que levam a questionamentos do evento Copa. Como  ela já vai acontecer, vamos, pelo menos, mostrar ao mundo organização e excelência durante a realização do evento.

* Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário, é escritor e preside o site Consultoria em Turismo. -www.bayardboiteux.com.br).

Tags: aproveitar, pouco, providências, resta, Tempo, vamos

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