Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

Um verbo no condicional

Vitor Sapienza*

Tenho um amigo acostumado a contar uma piada em que duas pessoas muito humildes conversavam, e um deles deu a receita para fazer o nosso país entrar nos eixos: ele dizia que a solução seria entrarmos em guerra contra os Estados Unidos e, perdendo a batalha, ficaríamos sob o domínio de Tio Sam. E aí o outro amigo teria feito a pergunta fatal:

 Mas compadre, e se a gente ganhar a guerra?

Piadas à parte, fiquemos com a nossa realidade. Vamos adequar a pergunta aos nossos dias, ou a um futuro bem próximo:

Compadre, e se a gente ganhar a Copa?

A resposta poderá ser tão simples quanto ingênua: faremos a maior festa do mundo, milhões de pessoas nas ruas, praças e avenidas; a imprensa mundial fazendo a cobertura, voltaremos ao primeiro lugar no ranking da Fifa, os nossos atletas serão altamente valorizados e  durante quatro anos estaremos “cantando de galo” em todos os estádios.

Ainda usando o verbo no condicional, se vencermos a Copa da Fifa, veremos os patrocinadores ganhando fortunas, as empresas de comunicação mostrando que valeu a pena o investimento e, certamente, durante um bom período esqueceremos os nossos problemas. O capitão do nosso time certamente irá mostrar o troféu no Planalto Central, governantes irão prestar homenagens aos atletas em suas cidades de origem, e muitos deles serão tratados como os filhos mais diletos.  E aí, em dado momento, alguém com um pouquinho de lucidez poderá perguntar em voz alta:

— Mas, isso é tudo?  

Bem sabemos que isso não é tudo, ao contrário, é apenas o começo, ou a continuação do engodo. Até que o capitão do nosso time erga o troféu, muito há que ser percorrido, tanto dentro como fora de campo. O talento dos nossos atletas poderá sobrepujar todas as diversidades, mostrar o talento nas jogadas enquanto, do lado de fora muitas jogadas já terão sido realizadas. Jogadas que não dão troféus, nem que merecem aplausos.

São as jogadas extracampo que nos preocupam. As jogadas desleais que propiciaram os aditivos nos contratos de construção; as jogadas  concatenadas pela Fifa que nos impuseram o jogo pesado do alto custo, do emprego do dinheiro público, da instalação do luxo nos estádios apenas para atender aos devaneios da entidade que dirige o futebol.

Em meio à festa, oxalá tenhamos vozes mais estridentes que os gritos de gol; vozes que questionem  os altos lucros que alguns segmentos irão usufruir, enquanto, finda a orgia, ficaremos com as nossas carências ainda mas expostas  e computando os gastos da festa.   

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br 

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