Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Contracultura e o jeito 'beat' de ser

Breno Rosostolato*

Um som envolvente na vitrola, com ritmos sensuais do jazz bop de Charlie Parker e Thelonious Monk davam a tônica do frenetismo dos pensamentos de um seleto grupo de pessoas que, mais do que contrários à guerra do Vietnã e o conservadorismo sufocante de uma sociedade americana capitalista, preocupada com a corrida armamentista, paranoica com a Guerra Fria e a sensação de insegurança do pós-guerra e preconceituosa, vivenciaram um marcante episódio para os Estados Unidos, a grande depressão de 1929. 

Os anos que se seguiram foram difíceis, e na década de 50 o momento era de caos, porque os direitos civis eram as principais revindicações dos negros, liderados por Martin Luther King, principal nome da luta contra o racismo nos Estados Unidos e que proferiu, talvez, uma das mais famosas frases da história americana ao iniciar seu famoso discurso Im have a dream. Estes embates estouraram nos anos 60 e foram o estopim de movimentos de liberdade sexual e emancipação, como no caso dos homossexuais e das mulheres. É neste contexto que jovens vão contra o conformismo social, questionam os conceitos de seus pais, as desigualdades, e transformam suas angústias em ações de oposição e contrariam tudo que ali está exposto. A contravenção é a maneira de romper com a hipocrisia e a alienação. 

Esta é a geração beat, com uma efervescência peculiar de mentes inquietas que anseiam por descobertas e desejam mudanças. Através de experimentações com o sexo e as drogas, os beatniks se interessavam pelo desregramento dos sentidos e possibilidades ilimitadas de serem eles mesmos, muito embora, para isso, seus comportamentos refletissem os autores que liam. 

Estou fodido (Im beat), dizia Herbert Huncke, amigo de Jack Kerouac, jovem marinheiro e ex-jogador de rugby em Colúmbia e considerado o precursor da geração beat, que adotou a expressão em seus escritos, daí o nome que consagraria o movimento, a “Beat generation”. Beat, a expressão para manter os “olhos abertos”, a “percepção”, a transformação do caos, da indignação por algo novo. Uma visão que surge marginalizada aos padrões sociais, que foram no caminho oposto ao sonho americano. Junto com William Burroughs, Allen Ginsberg, Lucien Carr e depois com a chegada do famigerado Neal Cassady, esta geração viria a influenciar diretamente a contracultura. 

A contracultura que, mais do que rebeldia, possuía propósitos de mudar o mundo, ideias, e que originou o movimento hippie e o festival de Woodstock, o tropicalismo, os punks e toda a cultura underground e por aí vai. A contracultura foi na direção oposta ao que era imposto pela política, aos modelos, a mídia e toda cultura massificante e ditadora, defendendo o anticonsumismo. Tudo passa a ser questionado, principalmente no que se refere às injustiças sociais e tendo o jovem como seu interlocutor. 

Foi a geração beat que semeou uma linguagem contraventora e uma linguagem poética que não tinha pretensões de ser intelectualizada ou de assumir papéis e funções de revolucionários. Os beatniks queriam ser e existir, tão somente. A vasta produção literária era a máxima do grupo. Uma escrita visceral e intensa, os contos são autobiográficos, e relatam suas experiências pessoais. Talvez, de todas as obras beatniks, a mais emblemática foi “On the road” (Pé na estrada), de Jack Kerouac, que foi o criador do estilo “mochileiro”. O livro conta a história de dois amigos, Sal Paradise (Jack Kerouac) e Dean Moriarty (Neal Cassady) que cruzam os Estados Unidos na rota 66, com descidas constantes ao México e por fim à cidade de São Francisco, protagonizando verdadeiras aventuras. Histórias regadas de muito álcool, sexo e liberdade. O livro foi escrito em apenas três semanas e uma série de grandes folhas de papel manteiga e depois coladas com fita, tudo isso para não ter de trocar de folha a todo o momento, tamanha era sua inquietude literária. Em 2012, o livro virou filme pelas mãos do diretor brasileiro Walter Salles e conta no elenco participações de Kristen Stewart (Crepsculo), Alice Braga (Eu sou a lenda), Kirsten Dunst (Homem-aranha) e Viggo Mortensen (O senhor dos anéis). 

Outras obras e que também foram expoentes do movimento beat são o profético “Howl (O uivo e outros poemas) e que beatificou Allen Ginsberg como o grande poeta de sua geração. Homossexual, judeu, drogado e, acima de tudo, um visionário, Ginsberg uiva e grita contra o preconceito sexual e racial, a barbárie da guerra, a escravidão materialista e a repressão, buscando catalizar toda sua energia na liberdade de expressão. Kill your darlings é um filme que conta a história de como se aproximaram os poetas beats, entre eles, Ginsberg, interpretada por Daniel Radcliffe. No Brasil, o filme foi apresentado no Festinal do Rio em 2013 com o título Versos de um crime. O livro Naked lunch foi um verdadeiro açoite na sociedade, ressaltando uma atmosfera cruel e agressiva, sem crivos. O leitor é apresentado a uma vida junkie, na qual entorpece e contamina a leitura. William S. Burroughs, que se livrou das drogas aos 45 anos, transita entre sua loucura de delírios e alucinações por conta do uso dos entopercentes, uma violência na descrição das cenas e, principalmente, as severas críticas políticas. Adaptado pelo cineasta David Cronemberg, a obra foi inspiração para o filme Mistérios e paixões, em 1991. Não teríamos conhecimentos dos autores beats se não fosse a coragem de enfrentar a censura do editor Lawrence Ferlinghetti, responsável por publicar os livros através da editora City Lights. Ainda vivo, aos 94 anos, Ferlinghetti é o maior expoente vivo desta geração. 

A geração beat ficou conhecida em 1952, quando John Clellon Holmes, novelista e amigo de Kerouac, publicou um romance sobre a Geração Beat, intitulado Go e com um manifesto no jornal  The New York Times: "This Is the Beat Generation". A turma era grande e não se resumia a estes citados até então. Gary Snyder, Carl Solomon, Barbara Guest, Denise Levertov, Frank O’Hara, John Ashbery e Keneth Patchen são alguns outros nomes. Gregory Corso, o quarto integrante dos poetas beats e pouco lembrado quando se fala dessa geração, possuía poemas intensos e arrebatadores, tanto quanto os outros mais conhecidos. 

Apenas mentes ávidas e idealistas, pessoas que não tinham nenhuma vaidade e que para revolucionar diziam e mostravam realmente suas ideias, sem se esconder, se omitir ou invadir o espaço alheio eram consideradas beats. Os beatniks invadiam as mentes insatisfeitas, que, assim como a deles, adotavam um movimento parecido com uma onda gigante que passava por cima da hipocrisia, do preconceito e das injustiças. Como toda manifestação popular, as intenções, comportamentos transgressores e suas concepções de vida podem até ser questionados, mas a contracultura e muitas outras manifestações sociais se ergueram diante da coragem, do brilhantismo e da audácia destes jovens que nunca almejaram fama ou seguidores. Não queriam criar seitas, tampouco doutrinar ninguém ou convencer. Deram seu recado e mostraram que manifestações se constroem através de ideologias.

* Breno Rosostolato, psicólogo, é professor da Faculdade Santa Marcelina (SP).

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