Jornal do Brasil

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

A democracia tem um objetivo

Tarcisio Padilha Junior*

A ênfase na competição econômica reduz o político ao econômico. Assim, o econômico passa a ser um problema político permanente. De fato, se os rumos da economia passam a depender de escolhas políticas circunstanciais, adiante a sociedade efetivamente terá de enfrentar dolorosos ajustes.

Precisamos desenvolver múltipos setores em que a competição econômica não depende de desenvolvimentos incessantes da automatização que provocam uma corrida desenfreada para o aumento de produtividade, mas, ao contrário, da promoção das qualidades e das especificidades. Precisamos de um pensamento capaz de religar os problemas, de contextualizar os dados, de integrar o conhecimento das partes e o conhecimento do todo, que não se reduza ao econômico e ao quantitativo.

Somos ainda dominados por uma lógica quantitativa que não vê como perspectiva senão o crescimento e o desenvolvimento, e pensa que reduz a maioria dos problemas políticos aos problemas quantitativos. A racionalização descarta tudo o que lhe escapa e que não pode compreender.

Não há como uma etapa do desenvolvimento científico-tecnológico se manter por mais tempo quando tudo se faz para encontrar alternativas mediante o fluxo contínuo de novos processos. Mudanças vertiginosas, à margem de estritos balizamentos éticos, favorecem a emergência do relativismo.

Alterações intempestivas nas regras do jogo deixam a impressão de que tudo pode ser mudado ao sabor das circunstâncias, dependendo dos ganhadores e perdedores conjunturais. A sensação de estar sendo manipulado gera no cidadão um ressentimento difuso com relação à política tradicional.

O poder não é um fenômeno natural, pertence à esfera política dos negócios humanos. Nesse terreno considera-se fundamental e essencial a disposição do homem para agir. A severa frustração com o resultado de tal ação decorre fundamentalmente da profunda crise de valores que vivemos hoje.

Só enriquece a compreensão da realidade o estímulo ao exercício continuado do espírito crítico — sobretudo para os jovens — através do permanente diálogo entre sistemas políticos conflitantes. A aprendizagem é vista como a formação da consciência de que nada há de eterno no mundo das formulações.

Sinteticamente, podemos dizer que as instituições respondem à natureza das coisas, às tendências e inclinações humanas, numa sociedade organizada. As instituições se renovam, sofrem as mudanças que o tempo lhes aporta, transformam-se, mas deveriam conservar a fonte da qual brotaram.

Cumpre à escola e à universidade o desafio de desenvolver a aptidão de pensar os problemas fundamentais e globais mediante uma formação de caráter eminentemente interdisciplinar. A educação disciplinar traz muitos conhecimentos, mas engendra um conhecimento especializado incapaz de compreender os problemas multidimensionais; considera benéfico e positivo o que é problemático.

A democracia tem um objetivo que a distingue substancialmente de outras formas de governo: a educação dos cidadãos à liberdade, em um ambiente social onde as condições econômicas, políticas e culturais sejam tais que os conduzam a adquirir consciência das possibilidades e dos limites.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.

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