Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

País - Sociedade Aberta

A labiopalatina

Marcos Roberto Tovani Palone*

O Brasil contabiliza mais de 280 mil pessoas com fissura labiopalatina, e o planejamento da gestação ainda é a principal medida preventiva.

A fissura labiopalatina, conhecida popularmente como lábio leporino, consiste na malformação craniofacial mais comum na espécie humana, com cerca de um caso novo a cada 700 nascimentos no mundo. Sabendo-se que a prevalência global é de aproximadamente 10 mil nascimentos por hora, isto implica na seguinte afirmativa: a cada quatro minutos uma criança nasce, em algum lugar do mundo, com fissura labiopalatina. 

Este defeito congênito grave desenvolve-se entre os finais do 1º e 3º mês de gestação devido a falhas no fechamento de estruturas faciais e/ou cranianas. No Brasil estima-se a existência de mais de 280 mil indivíduos com fissura operada e não operada, cujo impacto na sade pblica fez crescer positivamente nos ltimos anos o nmero de centros para tratamento especializado de Deformidades Craniofaciais. 

O principal e mais reconhecido dentre todos os centros brasileiros é o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, o qual atua não apenas como hospital de referência no atendimento ao indivíduo fissurado e/ou com outras anomalias craniofaciais como, também, é o maior centro formador de mão de obra especializada nesta área no país, contando com diversos cursos de pós-graduação lato sensu nas diferentes especialidades envolvidas no processo reabilitador e stricto sensu em nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado, o único no Brasil com área de concentração em fissuras orofaciais e anomalias relacionadas. 

As pesquisas mais atuais apontam que a etiologia das fissuras está relacionada a um padrão de herança multifatorial resultante da interação entre fatores genéticos e ambientais. Dentre os genes envolvidos no processo de desenvolvimento das fissuras destaca-se o IRF6, considerado elemento chave para o desenvolvimento oral e maxilofacial, e responsável por cerca de 12% dos casos de fissuras sem associação com síndromes. 

Na literatura, diferentes autores concordam que os fatores ambientais de risco para o desenvolvimento de fissura labiopalatina incluem: ingestão de bebidas alcoólicas, tabagismo, deficiência de vitaminas e uso de drogas anticonvulsivantes, fenitoína principalmente. Alguns acreditam ainda que a corticosterona liberada durante o estresse, os medicamentos benzodiazepínicos, vírus influenza da gripe, o vírus do sarampo, a febre relacionada a estes vírus, a radiação ionizante e agentes químicos presentes em pesticidas contribuam para elevar o risco de desenvolver fissura. 

Mesmo com a realização de inúmeras pesquisas científicas por todo o mundo e de grandes avanços sobre os conhecimentos acerca da genética relacionada ao desenvolvimento da fissura labiopalatina, ainda não é possível ao homem intervir sobre os genes envolvidos na formação desta anomalia. Desse modo, a principal medida preventiva para o risco de fissuras consiste no planejamento da gravidez, sendo sugerido, portanto, o acompanhamento médico pré-natal com suplementação vitamínica, sobretudo de ácido fólico.

* Marcos Roberto Tovani Palone, cirurgião-dentista e especialista em odontopediatria, tem o mestrando em ciências da reabilitação.

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