Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Aids, história e informação nunca é demais

Breno Rosostolato*

O tema é sempre recorrente na mídia pela importância na discussão e pelo fato de ser uma doença incurável. Nos últimos anos, as tentativas de se chegar a uma cura criam sempre uma esperança e uma perspectiva de que logo contemplaremos a erradicação deste mal, que assola a sociedade há 33 anos, desde os primeiros casos nos Estados Unidos, em 1981. Uma pandemia que se apresentava quando 41 jovens homossexuais apresentaram sarcoma de Kaposi, um câncer raro que até então se manifestava quase somente em idosos, que morriam logo em seguida ao se internarem no hospital. Inclusive, a doença durante um tempo era considerada como “câncer gay”, batizado de Grid (sigla em inglês para “imunodeficiência relacionada aos gays”), o que determinou o conceito equivocado de grupo de risco e estigmatizou os homossexuais, acentuando o preconceito. Foi quando a doença começou a se manifestar em heterossexuais, mulheres e crianças, que a sigla mudou para Aids (no português com definição “síndrome da imunodeficiência adquirida”). Em 1983, Robert Gallo e Luc Montagnier descobrem este novo retrovírus e publicam suas descobertas na revista científica Science.

A Aids toma proporções alarmantes nos anos 80, contaminando 89% dos hemofílicos dos EUA, pois, como não existiam técnicas para detectar o vírus, as transfusões de sangue eram arriscadas. A propósito, esta foi uma das maneiras como a doença se disseminou. As teorias do surgimento da doença são bastante numerosas e curiosas, como aquelas que são conspiratórias e defendem a ideia de o vírus ter sido criado em laboratório. No entanto, todas elas convergem numa ideia, de que a Aids é um vírus que infectava primatas, como o chimpanzé, e que não apresentava problemas.

A teoria do surgimento da Aids defendida pelos pesquisadores da Universidade de Nottingham sugere que o vírus HIV é a junção de dois outros vírus, que infectam macacos na África. Levando em hipótese que o HIV é uma variação de um vírus de nome estranho, o SIVcpz, encontrado nos chimpanzés, os cientistas descobriram o DNA do vírus de macacos de espécies diferentes e que fazem parte da dieta alimentar do chimpanzé. Na transmissão ao ser humano, a explicação mais aceita é conhecida como a teoria do caçador, ou seja, caçadores, ao manipularem a carne dos macacos caçados e consumirem esta carne, foram contaminados. Outra teoria plausível é a da Vacina Oral Pólio defendida por Edward Hooper, em seu livro The river. O escritor bitânico defende a ideia de que o vírus teria sido transmitido através de experiências de médicos nos anos 50, que estavam em busca de uma vacina para a poliomielite.  

O HIV se desenvolve em contato com o sistema sanguíneo, ocasionando a Aids. Aqui vale reforçar a explicação que após o contágio a doença pode demorar até 10 anos para se manifestar. Por isso, a pessoa pode ter o vírus HIV em seu corpo, mas ainda não ter Aids. Uma vez em desenvolvimento do vírus, começa um processo de destruição dos glóbulos brancos do organismo da pessoa doente. Como esses glóbulos brancos fazem parte do sistema imunológico dos seres humanos, sem eles, o doente fica desprotegido, e várias doenças oportunistas podem aparecer e complicar a sade da pessoa. O portador do vírus HIV, mesmo não tendo desenvolvido a doença, pode transmiti-la. 

A Aids é a segunda doença infecciosa que mais faz vítimas no mundo, logo atrás da tuberculose, revolucionou o mundo, transformando a sociedade em seus  hábitos e costumes, principalmente no que se refere ao sexo, justamente por se alastrar através de sua prática. Se por um aspecto positivo e necessário a revolução sexual na década de 60 e 70, originária da contracultura, desde o movimento beatnik, passando pelos hippies e a geração “faça amor, não faça guerra”, chegando aos movimentos femininos de emancipação das mulheres, às passeatas gays e ao surgimento da pílula anticoncepcional, possibilitou a quebra de tabus e paradigmas sociais e a ressignificação dos conceitos sobre sexo e o desejo, rompendo com a repressão sexual do passado. O vírus HIV, por sua vez, de uma maneira negativa, impôs cautela e cuidados com a entrega aos prazeres e aplicou uma nova ordem, o sexo seguro. 

De uns tempos pra cá a Aids tem sido encarada muito diferente desde sua descoberta e o primeiro caso documentado de que se tem conhecimento, em 1959, de um homem da atual República Democrática do Congo. Sua destrutividade e a ideia que se tinha de “pena de morte” logo após o diagnóstico foram substituídas por perspectivas e o prolongamento da vida com a chegada dos remédios para combater o vírus. Em 1986, com a chegada do AZT, que apresentava resultados bem limitados, ou em 1996, com o surgimento do coquetel de drogas antirretrovirais, a probabilidade de sobrevida das pessoas infectadas é muito maior. Muitos encaram o vírus como uma gripe, e não se preocupam como de fato deveriam proceder, justamente porque esta sobrevida deu uma falsa ideia de que a doença não é mais tão perigosa. Os estudos mais recentes para alcançar a cura do HIV indicam um tratamento através da terapia antirretroviral, altamente ativa (Haart, na sigla em inglês), reduzindo em 96% a transmissão do vírus e aumentando a qualidade de vida do infectado. Estas pesquisas foram apresentadas numa reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA). Os próximos passos são ensaios clínicos com os pacientes em meados de 2014. 

Fato é que a Aids já matou milhões de pessoas até hoje, e a cada ano são registrados de 33 a 35 mil novos casos (números somente do Brasil). Até hoje se estima que 630 mil pessoas no país vivam com o HIV. A melhor forma de combater esta pandemia é o uso de preservativo, não compartilhar seringas e, principalmente, muita informação contra a ignorância e equívocos, pois muitas pessoas ainda possuem dúvidas sobre as formas de contrair a doença. Combater o preconceito é essencial à medida que é preciso desmistificar algumas ideias totalmente errôneas sobre a doença, como considerar que apenas contrairão a doença homens homossexuais e usuários de drogas, ou que qualquer relação anal entre dois homens, que não estão infectados, pode levar à infecção do vírus. O dia 1 de dezembro foi eleito o Dia Mundial de Luta Contra a Aids desde 1987 e serve para reforçar a tolerância, conhecimento e a compreensão às vítimas do HIV/Aids, fatores primordiais para vencermos a doença. Às vésperas do Carnaval é sempre bom reforçar esta ideia, de que o sexo e o prazer podem ser muito mais gostosos quando somos conscientes.

* Breno Rosostolato, psicólogo, é professor da Faculdade Santa Marcelina, SP.

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