Jornal do Brasil

Sábado, 19 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Como assim, criar filhos para o mundo? 

Ana Paula Maciel *

Essa semana uma amiga escreveu sobre a importância de criarmos filhos para o mundo e na dificuldade que temos de nos separar deles. 

O filho dela tinha viajado para visitar os avós em outro Estado, a casa estava vazia e ela estava com o coração apertado. 

Fiquei pensando no assunto. 

Realmente sempre falam sobre essa teoria de criar filhos para o mundo mas eu discordo completamente.

Não sou psicóloga, então minha opinião não tem qualquer peso acadêmico. É só um desabafo. Não me levem a mal.

Sou mãe, sou filha, sou mulher. Também tenho filhos e quero que eles sejam felizes, autônomos e independentes, só que não os crio para o mundo e já vou explicar o motivo. 

No caso da minha amiga, acho que esse tipo de aperto no coração faz parte e aprenderemos a lidar com eles. Ou não. Sentiremos o coração apertar da mesma maneira a cada despedida, por mais breve que ela seja. A cada separação. Mas seguiremos adiante sabendo que nossos filhos estão felizes. E ficaremos felizes com a felicidade deles sempre que puderem partilhar conosco. Se eles estiverem felizes e não soubermos que estão felizes, ficaremos com o coração apreensivo sem saber como e onde estão.

Ficaremos felizes sempre que soubermos que eles estão felizes. Isso sim. Isso sempre. 

Conhecendo-a como conheço, ela também não cria para o mundo e é por isso que talvez esteja intrigada.

Discordo da teoria de criar para o mundo porque não acho que o mundo seja o fim ideal. O mundo é violento, selvagem, hostil. Criar para o mundo me dá a impressão de criar um ser humano egoísta, egocentrado, voltado para o seu próprio prazer, custe o que custar, doa a quem doer. 

Criar para o mundo, ainda mais hoje em dia, é criar um monstro. 

Em primeiro lugar, precisamos lembrar que nossos filhos, antes de serem " nossos" são de Deus. São presentes. Bênçãos. 

Nos foram entregues para que cuidemos deles com amor. Temos responsabilidades sobre eles e precisaremos prestar conta do nosso trabalho com Deus Pai lá na frente. 

Como assim, criar para o mundo? 

Devemos criar nossos filhos para Deus, para que sejam cidadãos do mundo. Essa é uma das missões dos pais. De cada pai e de cada mãe. A mais importante de todas elas. É para a casa Dele que eles voltarão, se souberem amar, respeitar e se tiverem misericórdia. Cabe a nós ensina-los. Foi para isso que nos foram confiados. 

Devemos criar os filhos para eles terem valores, princípios incorruptíveis, virtudes inabaláveis. 

Devemos criar os filhos para eles não titubearem na hora de escolher o melhor caminho. Para eles entenderem nossas lágrimas e se alegrarem com nossas alegrias. 

Devemos criar os filhos para eles terem respeito pelos pais e sempre que saírem se lembrarem de mandar notícias. Isso não ficará claro para eles se não for dito. 

Quem cria para o mundo corre o risco de ficar como aquelas pessoas que se acham independentes e que chegam à velhice solitárias, reclamando que os filhos não ligam, que não mandam notícias, que não têm paciência, que isso e que aquilo. Ora. Se não lhes foi ensinado quando pequenos a importância da família, da comunicação, de dar satisfação aos pais... Se não lhes foi dito que o lar é um refúgio sagrado, que em casa encontrariam sempre um colo, uma palavra de conforto, um abraço apertado, como cobrar deles anos depois? Eles não sabem do que se trata. Desconhecem esse sentimento. Não é que sejam maus. Só não aprenderam quando era hora.

Os filhos podem - e devem - se divertir com os amigos, mas não podem esquecer que seus pais estão em casa esperando-os.

Quando viajam, devem ser instruídos de encontrar algum lugar para mandar notícias. 

Os filhos tem obrigação de prestar contas ao pai e isso nada tem a ver com autoritarismo paterno. Os pais têm autoridade para exigir esse comportamento dos filhos. 

Quem cria para o mundo se exime de várias responsabilidades. Transfere a responsabilidade para o mundo. E o mundo não cria ninguém. 

Criar para Deus não significa colocar os filhos numa redoma de vidro. Muito pelo contrário. É deixá-los ir quando o coração achar que deve. É dizer não quando tiver motivo - ou um simples pressentimento. É deixar transparecer os sentimentos e falar abertamente sobre eles. 

Eu crio meus filhos para Deus porque acredito que essa seja a única maneira de vivermos em paz nesse mundo. 

Por um mundo com filhos criados com amor, respeito, dedicação. Por um mundo com filhos que cresçam na certeza de que a felicidade é que é o caminho.

Por um mundo com pais que tenham a consciência tranqüila e serenidade suficiente para educar porque sabem que o melhor Pai de todos está no comando.

Por um mundo melhor todo dia. Por um mundo melhor sempre. 

* advogada por profissão, escritora por paixão, Ana Paula Maciel assina blog "Mulheres plurais"

Tags: Artigo, criação, família, Filho, mãe

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