Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Uma entre muitas possíveis

Tarcisio Padilha Junior*

O estabelecimento da sociedade civil se liga ao surgimento da forma moderna de Estado. Antes, a maior parte da vida do dia a dia estava fora do alcance do poder administrativo do Estado. A comunidade local era em grande parte autônoma em termos de suas tradições e modos de vida, e a maioria das formas de atividade pessoal ficava completamente intocada pelo aparato administrativo.

Nas formas sociais modernas, o Estado e a sociedade civil se desenvolvem em conjunto como processos interligados de transformação. A condição para isso é paradoxalmente a capacidade que o Estado tem de influenciar muitos aspectos do comportamento diário dos indivíduos e organizações.

A cidade moderna é de longe a série mais extensiva e intensivamente artificial de cenários para a atividade humana que jamais existiu. Uma visita ao campo ou caminhada no parque podem satisfazer o desejo de estar próximo à natureza, mas aqui a natureza está domesticada socialmente. Sendo assim, cidades viram compostos de ruas ao invés de lugares para encontros abertos.

Muitas formas modernas de especialização não derivam do atendimento a necessidades genuinamente experimentadas; em boa parte os novos especialistas inventaram as necessidades que afirmam satisfazer. Será que o indivíduo se encontra hoje passivo em relação a tais mecanismos?

O indivíduo pode refugiar-se num estilo de vida tradicional ou preestabelecido como meio de aliviar as ansiedades que de outra maneira poderiam afligi-lo. Mas a segurança que tal estratégia oferece será provavelmente limitada, porque o indivíduo não pode deixar de saber que tal opção é apenas uma entre muitas possíveis.

Todo indivíduo reage seletivamente às diversas fontes de experiência direta e de experiência transmitida pela mídia. As localidades são completamente atravessadas por influências à distância, seja isto percebido como fonte de preocupações ou simplesmente aceito como parte corriqueira da vida social.

A atitude dos homens para com o mundo é essencialmente uma atitude instrumental, baseada na dominação e na manipulação. A visão das mulheres é caracteristicamente diferente, elas se relacionam de outra forma com o meio ambiente. A maternidade e outras atividades de criação em que as mulheres estão envolvidas as vinculam aos processos reprodutivos naturais bem mais que os homens.

A capacidade de adotar estilos de vida livremente escolhidos encontra-se em tensão com a ordem estabelecida (vide os agora tão falados rolezinhos). Não se deve em absoluto subestimar a dificuldade de lidar com esse problema.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro. 

Tags: a, adotar, capacidade, de, de vida, escolhidos, estilos, livremente

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