Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

'Rolezinho' e inserção

Wanda Camargo*

Um preconceito muito comum no Brasil, encontrável em todos os extratos sociais, é o de que apenas as pessoas ricas são inteligentes. Todas as demais, ao permanecerem pobres (ou até mesmo remediadas), são inferiores. A questão tem muitos aspectos – a maior parte deles com profundas raízes na forma como são educados os brasileiros, na escola e fora dela, que relaciona o valor pessoal com a fortuna material, e pouco ou nada com a riqueza intelectual ou espiritual.

Crianças de extrato social e econômico mais alto têm todas as condições de acesso às benesses tecnológicas, ao que de melhor existe para garantir saúde, bom sistema de educação formal, segurança e beleza. Podem comprar aquilo que está na moda, são bem recebidas, e o padrão de comportamento de sua classe determina o dos demais.

Evidentemente, aquelas oriundas das classes menos afortunadas tentarão imitá-las, ou, não sendo possível, pelo menos irritá-las. Cansadas de usar um simulacro das roupas de marca, criam hoje suas personagens identificadoras, distinguem-se dos “riquinhos” adotando outro vestuário, outra atitude, outros heróis.

Impõem-se por procedimentos que em nada lembram os tradicionais: querem, nas suas próprias palavras, “causar” – ou seja, mostrar-se diferentes, chamar a atenção, existir em suma. E se esta forma de conduta não é aquela que adultos sabem controlar, o conflito se instala.

Uma das manifestações deste descompasso é agora constituída pelos rolezinhos, encontros de adolescentes de periferia em grandes centros de compras, em que correm, gritam, assustam os demais, e durante os quais alguns (talvez até externos ao grupo inicial) aproveitam para roubar ou provocar danos patrimoniais.

Teóricos dividem-se entre uma ala que defende o direito de ir e vir, à inclusão e impossibilidade de separação (quais os critérios?) entre os que podem ou não entrar – e outra, que advoga a necessidade de impedir o ingresso, de coibir abusos os quais frequentemente acontecem – num espaço que é privado, embora também público.

Socialmente educados para confundir vitória com o sucesso financeiro, esperteza com inteligência (nenhuma é melhor ou pior, são apenas diferentes), temos dificuldade em aceitar que alguém possa ser feliz sem as roupas da moda, as viagens “luxuosas” e as demais insígnias de status social, e assim entendemos perfeitamente estes jovens.

Por outro lado, sabemos que se trata de um problema crônico, resultante de mazela social e ausência de um bom sistema educacional, que permita aspirar a outros valores, ter melhores modelos, direcionar a ambição para as conquistas do intelecto. A solução não virá no curto prazo, embora não possamos permitir que o incêndio destrua tudo antes que esta se estabeleça.

Nenhuma escola, sozinha, poderá interferir neste estado de coisas. Instituições de ensino são também produtos sociais, estão inseridas em comunidades e refletem seus valores. A alteração desta realidade é complexa, porém, no lugar da inovação, do acesso ao saber, é urgente tal reflexão, para que alunos vindos das camadas mais desfavorecidas não continuem sofrendo mais uma forma de exclusão.

* Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).

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