Jornal do Brasil

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

País - Sociedade Aberta

Também fui 'rolezinho'

Sergio Sebold*

Na minha adolescência tive a oportunidade da fazer o meu rolezinho. Claro, muito mais ingênuo do que hoje se faz. Era brincadeira de irmos a um barzinho, nos sábados à noite, comer à vontade e outras proezas. Depois dizíamos que não tínhamos dinheiro para pagar. Como éramos uns quinze, o proprietário fazia mil ameaças, mas nada acontecia. A cidade era pequena, repercutia mal por todos os cantos. Éramos vistos pelos antigos da época como "juventude transviada". No outro dia, nossos pais bem conhecidos na cidade eram chamados para pagarem a conta. Eram brincadeiras sem maldade, mas atrás dela estava o chamado desafio de uma geração contra o establishment.  Felizmente, nada mais danoso foi causado. Apenas pitos e alguma carraspana de nossos pais. Todos se tornaram cidadãos honrados.

Estamos no século 21, e os rolezinhos de hoje têm à sua disposição toda a parafernália tecnológica da internet via redes sociais. Os números são grandiosos. Mas, pelo que vemos, são também jovens adolescentes que estão querendo fazer a mesma coisa que nós (geração passada) fazíamos. Na prática, eles estão procurando seu lugar ao sol, querem visibilidade. A contestação nesta fase da vida é até salutar, desde que não venham prejudicar a outrem. Pelo que está sendo propalado, é apenas uma arruaça nos shopping centers. Talvez uma forma de contestação pelo consumismo exagerado nos dias atuais.

É bem conhecido o episódio do dia do Pindura, 11 de agosto, em comemoração à criação da primeira Faculdade de Direito, em 1827. Os acadêmicos de então já sentiam as agruras do dinheiro curto; neste dia simplesmente comiam nos restaurantes próximos à Faculdade e não pagavam. Usavam o refrão: Pindura. Sem entrar em detalhes, houve muitos problemas com a polícia face à denúncia de muitos proprietários indignados. Na minha época de acadêmico, no Rio de Janeiro, os restaurantes mudaram de estratégia. Começaram a ver com simpatia o movimento, convidando-os a comerem de graça naquele dia, com o compromisso de divulgar o restaurante. Ou seja, um problema de caráter policial se transformou numa oportunidade de negócio.

Para os shopping de hoje, talvez seja também uma oportunidade de receberem bem estes jovens, com uma bela recepção, bem organizada para granjear a simpatia deles, fazendo-os ver  que a sociedade de hoje os vê com bons olhos, pois eles são o futuro da nação. Pela leitura e adesões do Face, eles estão oferecendo o maior respeito para o evento, no qual se comprometem a não fazer depredação, apenas uma brincadeira  sem maiores consequências.  

Esta  é uma oportunidade de oferecer um mimo, um presentinho, até talvez um cachorro-quente com refri, com o compromisso de divulgarem as belezas do shopping. Esta seria uma maneira simpática de recebê-los em vez da violência dos cassetetes.  Felizmente, o próprio governo, pelas palavras do ministro Gilberto Carvalho, corrobora  este mesmo pensamento  reconhecendo que, se o episódio for encarado pelo lado da repressão, seria como colocar gasolina na fogueira. E os shopping dariam uma enorme fogueira.

Devemos ouvir a voz desta geração com  educação, não repressão.

* Sergio Sebold, economista, é professor. - sebold@terra.com.br 

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