Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Copa 2014: a importância das placas de sinalização

Orlando Oda*

A Copa do Mundo 2014 é um megaevento esportivo. Apesar de sua grandiosidade, no fundo é como qualquer evento corporativo, cujos objetivos são atrair, divulgar, vender, reter e fidelizar os clientes. Uma coisa é trazer as pessoas ao evento, outra é conquistá-las para que retornem no futuro ou que recomendem para os outros. Inicialmente, o objetivo é atrair o maior número de pessoas. O segundo é gerar uma receita no próprio evento ou futuramente.  O terceiro e o mais importante é conquistar as pessoas para gerar mais negócios no futuro.

Para atingir o objetivo final é necessário causar uma boa impressão para que as pessoas lembrem sempre da marca, produto ou serviço. Mesmo nos eventos comerciais, tipo show musical, há uma grande preocupação com a recepção, identificação, sinalização e acomodação.  Por quê? Devido ao custo da aquisição de um cliente. Sai muito mais barato vender a alguém que já é cliente.

A comissão organizadora tinha uma verba inicial de 2,5 bilhões para acomodar as pessoas em 12 arenas, total de 677.900 assentos. A verba flexível já está em 8 bilhões, e fala-se em 10,5 bilhões (4,2 vezes a verba inicial). O custo por assento de R$ 11.800 é o dobro que os concorrentes (África do Sul e Alemanha) gastaram. Uma das mais caras do mundo, tudo para causar uma boa impressão.

Para justificar verba tão generosa, a diretoria comercial fez as projeções. Estimava trazer 600 mil estrangeiros, o dobro da África do Sul.  Total de 3,6 milhões, somados aos 3 milhões nacionais. Serão injetados 25,2 bilhões na economia, 6,8 bilhões pelos estrangeiros e R$ 18,3 bilhões pelos brasileiros. Toda justificativa é por conta do efeito multiplicador dos gastos, de modo que, quanto maior o gasto, maior é o efeito multiplicador. É um gênio!

Mas, como estão os demais departamentos: saúde, educação, segurança? Alguém disse, vamos focar na Copa do Mundo, porque dá mais voto na Assembleia. Que faremos se faltar dinheiro? Não esquenta, não, é só aumentar o preço (impostos). Tem muita gente suspirando como eu: Ah se tivesse uma empresa ou emprego assim....

A questão toda é se vamos mesmo atingir o objetivo principal: conquistar as pessoas para gerar mais negócios no futuro e para que façam boas recomendações aos amigos. Digo isso, baseado no simples fato de notar a ausência de placa de identificação e sinalização adequada aos estrangeiros.

Estive há pouco tempo no Japão. Uma das coisas que me chamaram a atenção é o quanto estão preparados para receber um estrangeiro. E olha que a Olimpíada lá será só em 2020. Nos aeroportos e estações ferroviárias as placas de identificação são em “Kanjis”, o alfabeto japonês, mas sempre existem placas em letras romanas quando for nome de localidade, sinalização ou de segurança.

No guichê de informação turística, a atendente se comunica em inglês. Tem em mãos um mapa turístico das ruas da cidade, tabela de ônibus e metrô com horário e até do Shinkansen (trem-bala).  Antes de entregar o mapa, faz o traçado mais curto com a caneta e diz quanto tempo vai levar para chegar ao local. Há uma preocupação exagerada com o tempo, tudo lá é cronometrado.

A atenção ao turista vai muito além do guichê de informações. Por exemplo, em Kyoto e Nara, que são dos locais mais procurados pelos turistas, ao descer do Shinkansen pode-se ver guias turísticas voluntárias que falam inglês para auxiliar e acompanhar gratuitamente. Não dê gorjeta porque a moça ficará ofendida.

Fui a uma cidadezinha no interior da ilha de Hokkaido, 200 km da capital Sapporo, mais de 1.300 km de Tóquio. Não tem guichê de informação turística. Quase tudo fechado no inverno por causa da neve. Só uma agência de correio local para pedir a informação. Espanto: tinha um mapa da cidade e, além disso, o atendente me levou de carro até o local, só porque disse que vinha do Brasil para conhecer a cidade.

Toda vez que vou a um local desconhecido ou desembarco em um aeroporto, a primeira coisa que procuro é uma placa de sinalização. Se encontro, fico aliviado. Sinto segurança como se estivesse sendo recebido por alguém. Quando não encontro, começa a preocupação. É a primeira impressão que fica, portanto, geralmente não recomendo e não dou boa referência aos amigos.

O objetivo de um evento é sempre causar boa impressão. É fundamental preocupar-se com os pequenos detalhes. Como é bom ser bem recebido, ser bem tratado! Como é bom ver identificações e sinalizações, demonstrando a preocupação com um visitante! Se 10% dos 3,6 milhões retornarem nas Olimpíadas de 2016 serão 360 mil pessoas. Sairá muito mais barato vender para quem já é cliente.

* Orlando Oda, administrador de empresas, fez mestrado em administração financeira pela FGV e é presidente do Grupo AfixCode.

Tags: boa, causar, de, é sempre, impressão, o, objetivo, um evento

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