Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Terra de ninguém 

Vitor Sapienza*

Sem querer ser repetitivo, mas sabendo que a atual situação nos leva a isso, temos que voltar ao assunto que há muito tempo vem nos preocupando: a violência nos estádios de futebol. As imagens da última rodada do Campeonato Brasileiro rodaram o mundo e mostraram uma realidade que nos envergonha. Elas provam que as arquibancadas dos nossos estádios se transformaram em terra de ninguém.

Qualquer pessoa medianamente informada sabe o que ocorre  quando grupos de torcedores se encontram. Geralmente, nessas ocasiões fica nítida a mudança de comportamento típica das pessoas providas de pouca inteligência e muita agressividade. Quando na individualidade se escondem por trás da aparência pacífica e muitas vezes beirando a covardia; quando em grupos, libertam os seus instintos e manifestam a irracionalidade que os caracteriza.

Muitos desses encontros são coincidências de itinerários, mas muitos outros são previamente marcados pela internet. E o futebol, que deveria ser tratado e respeitado como esporte, ganha outra conotação, a de aglutinador de grupos especializados em espargir a violência.  E é essa imagem que estamos exportando para o mundo inteiro. Some-se a ela a violência diária, e temos um quadro que serve unicamente para nos prender em casa, protegidos por grades e sistemas de vigilância.

Assim, somos obrigados a voltar ao passado, quando as nossas cidades e a nossa população não dispunham dos confortos de hoje, mas o que entendíamos como violência era uma brincadeira se comparado ao que temos no momento. A imagem de felicidade que sempre nos caracterizou vai ficando manchada.  A nossa concepção de população feliz vai se esmaecendo e a cada dia perde o pouco de brilho que ainda resta.

O nosso dia seguinte ao futebol é sempre pintado por dúvidas. Dúvidas que remetidas às nossas autoridades continuam sem respostas. A impunidade predomina, e o assunto vai para as páginas internas até que novas tragédias ocorram. E elas estão aí, à espreita, dependendo apenas do nome da competição. Sim, porque não é necessário ter muita inteligência para acessar um computador e, apostando no anonimato, conclamar pessoas para o campo de batalha.

As consequências virão a curto prazo e são fáceis de imaginar. O cotidiano das arquibancadas do nosso futebol é muito diferente do que será mostrado durante a Copa da Fifa. Tomara que a competição mundial altere a nossa realidade, mas não temos esperança. Os públicos serão diferentes, a estrutura será diferente e, passada a festa, tudo voltará ao normal, dentro da anormalidade que é a nossa realidade.

Que a Copa do Mundo sirva para alertar as nossas autoridades; que o primeiro passo seja a divulgação da identidade das pessoas que se escondem nessas torcidas organizadas. O país precisa saber, simplesmente porque eles viajam “a serviço” de seus clubes, desconhecem fronteiras, divisas de estado e vivem unicamente para isso. Travestidos de integrantes das tais “nações” – nome dado a algumas torcidas – essas pessoas têm tempo de sobra tanto para passear quanto para preparar a estratégia de luta que será empregada no próximo confronto.

O quadro é alarmante e precisa ser exposto, sempre. Não será prudente confiarmos na responsabilidade e na liderança das pessoas que se dizem representantes desses grupos. Assim, tanto nas ruas como no transporte coletivo, precisamos ter muita sorte; nos estádios ou nos seus arredores, muito mais. Ali, o bom-senso recomenda, e ele deve trazer  muita oração não pela vitória do nosso time mas pelo nosso retorno ao lar, sem ferimentos e, preferencialmente, vivos.

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br

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