Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Para o turismo de experiência há limites?

Andréa Nakane*

A onda do turismo de experiência há muito tornou-se um fato que colabora com a prospecção e desenvolvimento de novos produtos para atender a nichos de mercado, explorando vivências que sendo singulares propiciam sensações memoráveis, que em muitos casos permitem autoconhecimento e reflexões em momentos de ludicidade e prazeres.

Segundo o professor e escritor Luiz Gonzaga Godoi Trigo, em sua mais recente obra, intitulada A viagem – Caminho e experiência (Edit. Aleph), “Uma viagem é uma ruptura do cotidiano e, ao mesmo tempo, um encontro com nossas expectativas e nossos desejos.

E como ruptura, naturalmente, vêm à mente situações e estilos de vida contrários aos do costume, do nosso dia a dia. Porém, as discussões que fervem logo no início de 2014 estão vinculadas à extravagância de alguns roteiros inusitados, que estão ampliando seu portfólio de ofertas, balizados por uma superficial vertente de responsabilidade social, e galgam espaços significativos na mídia.

Nesses casos, os produtos têm como inspiração as próprias mazelas humanas e catástrofes naturais. Para muitos estudiosos, uma exploração insólita com a exposição de pessoas de uma forma nada construtivista, pelo contrário, chegando mesmo a ser considerada por alguns como algo depreciativo. Os ingleses, inclusive, cunharam o termo favelizar, ao promoverem a fantasia da pobreza para pessoas abastadas, isso, ainda, no século 19, ao promover visitas noturnas a favelas do leste da capital britânica para uma convivência curta com os hábitos dos moradores das localidades.

Atualmente, países como África do Sul, México, Indonésia, Holanda, Estados Unidos e Tailândia são alguns dos destinos que apresentam as opções mais concorridas do chamado turismo de miséria. No Brasil, desde o início da década de 90, o Favela Tour tornou-se um ícone turístico no Rio de Janeiro. Em plena era da pacificação das comunidades carentes cariocas, aumentou-se os meros de turistas, tanto estrangeiros quanto nacionais, que querem se aventurar pelas vielas até então proibidas, no intuito de contemplar não só paisagens deslumbrantes mas conhecer um estilo de vida dicotômico, simplório e em alguns casos miserável, que extrapola condições de sobrevivência digna.

A manutenção de cenários que se enquadram nesses panoramas, muitas vezes, não permite a alteração desses quadros, o que se profetiza como uma ação sem cunho transformador na localidade-vitrine e que pode gerar estranheza e um choque momentâneo no espectador-turista, mas sem efetivamente provocar atitudes empreendedoras de cooperação e que sensivelmente seja hospitaleira, já que a essência da hospitalidade é uma via de mão dupla, na qual a reciprocidade é sua identidade mais latente.

Por isso a pergunta não se cala... Terá limites o turismo de experiência? Qual o verdadeiro papel da troca entre visitante e visitado? Reflexões pertinentes para um novo começo... pelo menos de ano.

* Andréa Nakane é coordenadora geral do Curso de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi.

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