Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

País - Sociedade Aberta

O eu atomizado

Eleonora Mello Nascimento Silva*

O presente artigo propõe pensar uma articulação possível entre o desamparo humano e o papel das redes sociais. Entendo o culto às redes sociais como um tempo irreversível nos dias atuais. Não há dúvida que se trata de uma busca lícita frente à solidão - que sempre existiu – em um mundo globalizado. Na rede não se fala mais de amigos e sim de seguidores. Quais são as novas formas para se manter a integração do eu, quando a singularidade de cada um passa a ser diluída por muitos? Faz-se necessário pensar em um novo empreendimento do psiquismo “on line” ou cairemos em uma nostalgia improdutiva. A linguagem tecnológica, a globalização das idéias, o controle sem limite da privacidade de cada um em particular, é uma perspectiva original onde se torna imprescindível refletir sobre diferentes formas de sobrevivência psíquica.

Fazendo um recorte na teoria freudiana, penso na tão falada “ síndrome do pânico “, que é a meu ver uma simplificação da compreensão do sentimento de angústia abissal que percorre toda e qualquer pessoa. Seguindo o pensamento freudiano procuro uma resposta para que possamos avançar no cerne desta questão. Para Freud a angústia alcança uma intensidade máxima quando acontecem as trombadas da vida para as quais não se está preparado, que estão inevitavelmente ligadas a situações de perdas no processo psíquico: o destino inexorável da morte, a perda emocional de um ente querido, um emprego indispensável porém perdido, uma desilusão amorosa. Ou seja, um conjunto de forças , que causa um sentimento de profundo desamparo na sua mais perfeita tradução. Sem aviso prévio a pessoa assiste ao vivo e a cores sua imagem destroçada, como um átomo bombardeado, estilhaça-se em micropartículas. É a fragmentação do eu por excelência. Este “estado de aniquilamento” caracteriza-se por uma ruptura da homeostase corporal, produzindo taquicardia ,compressão do diafragma, sudorese, perda do equilíbrio corporal, vertigem, claustrofobia (medo de espaços fechados) ou seu oposto agorafobia (medo de espaços abertos). Ainda que por motivações psicológicas, o fato concreto é que o corpo sofre e sente efetivamente o peso da dor. Surge a criança oculta no âmago de todo homem. Faz-se necessário a presença de alguém que possa representar uma função materna libertadora que permita uma passagem não traumática para as demandas de um mundo adulto.

Creio que uma das funções da psicanálise no mundo atual seja exatamente essa: recriar a comunicação humana e pessoal em um ambiente dominado pela relação tecnológica. E nossa missão e diria até mais, obrigação recuperar o elemento humano demasiadamente humano desses tempos modernos.

*Eleonora Mello Nascimento Silva é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise

Tags: claustrofobia, corporal, de espaços, fechados, medo, oposto, ou seu, vertigem

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