Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Diz o que lês que te direi quem és

Wander Lourenço*

Nos últimos anos, um renomado jornalista habitualmente me telefona após o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para consultar-me a respeito das questões múltiplas referentes ao processo seletivo sob os auspícios do Ministério da Educação e Cultura (MEC). As indagações são permeadas de questionamentos que abarcam desde a carga horária da banca avaliadora, o valor pago por redação até o desempenho dos concorrentes aptos ao ingresso em cursos superiores, em grande parte, das universidades públicas do país. Nesta ocasião, especificamente o repórter encontrava-se preocupado em descobrir os reais motivos do pífio desempenho dos alunos nas provas de redação do Enem. Creio que, por esta razão, arguiu-me sobre as causas e consequências da dificuldade de escrever dos brasileiros que, com raríssimas exceções, rascunham idôneos testamentos da incompetência do processo de aprendizagem a abeirar-se do analfabetismo funcional.

Foi então que lhe disse que, quando ministro da Educação, o filólogo Antônio Houaiss afirmou que mais de 80% da população se constituíam de analfabetos funcionais; ou seja, pessoas que sabem ler e escrever; porém, não conseguem desenvolver um pensamento crítico por intermédio da arte do Deus Thoth, registrada por Platão, em Fedro. Em primeiro plano, é preciso compreender que a habilidade de escrita provém da formação do Leitor; e que o péssimo resultado das avaliações de redação se pautava pela ineficácia da estratégia das instituições de ensino do país, inclusive as unidades escolares com certificado de excelência. Não obstante, por determinação institucional, ocorre que os docentes de tais indústrias da aprendizagem habilitam o aspirante ao convívio universitário pelo exercício mecânico de reprodução de ideias, em detrimento do predomínio da reflexão de cunho argumentativo construída pelo viés da leitura. Mediante a precariedade intelectual do candidato baseada na deformação do raciocínio, o esquema de aprovação imputado por um mero projeto publicitário, em se tratando das sociedades de ensino adestradas ao marketing educacional, se propõe a esvair-se por frágeis mecanismos de representação discursiva.

No tocante ao setor público, por preguiça ou inaptidão dos professores, as atividades relacionadas ao exercício da composição dissertativa se reduzem ao campo da improvisação no espaço da folha de resposta destinado às mal traçadas linhas da redação, de vez que as aulas são abreviadas pelo conteúdo programático de língua portuguesa e literatura brasileira no ensino médio. Quando fui perguntado sobre as providências que deveriam ser implantadas para a transformação do caótico quadro protagonizado por arquétipos de maus escritores juvenis, respondi-lhe que é preciso fomentar, em caráter de urgência, por intermédio de emenda constitucional na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a instauração da disciplina Formação do Leitor, na grade curricular dos ensinos fundamental, médio e superior. Em segundo plano, ponderei ao jornalista que era necessário exigir por decreto que, em todos os concursos públicos e privados, obrigatoriamente constasse a prova de proficiência de redação em português.

Destarte, observar-se-ia que, entre a aplicação do plano de ensino da disciplina Formação do Leitor e a exigência do exame de redação em língua portuguesa, se programaria, para muito além das ineficazes campanhas em prol da leitura patrocinadas pelo poder público, um modelo de concepção de acesso ao livro através de bibliotecas modernas, com um auditório multimídia e laboratório de informática. Além da implantação do Espaço de Formação do Leitor, as autoridades deveriam direcionar investimentos para Oficinas de Criação da Escrita, ministradas por autores pátrios e estrangeiros oriundos da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP). Com efeito, poder-se-ia inclusive pôr em pauta o Novo Acordo Ortográfico, de modo a alinhar as desavenças linguísticas a emperrar o processo de adequação idiomática entre Brasil e Portugal.

Em conclusão, poder-se-ia aventar a construção de um Leitor que se formasse a partir de um processo de inclusão intelectual, sedimentado por conhecimento ao menos dos clássicos da literatura em prosa de ficção, como Alexandre Herculano, José de Alencar, Eça de Queirós, Machado de Assis e Guimarães Rosa.  Isto para que, quando me perguntassem a respeito da catástrofe das provas de redação, eu respondesse: diz o que lês que te direi quem és.

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, pós-doutorando da Universidade de Lisboa, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br

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