Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Velhos e velhas, aposentados e aposentadas

Reginaldo de Souza Silva*

No segundo dia de 2014, levantei, como milhares de pessoas, com a certeza de que este ano será melhor do que aquele que passou. Fui ao centro da cidade para ver a retomada da vida diária, e lá, como sempre, as falsas promoções etc. No vaivém, entrei em lojas e bancos, observei as pessoas, as filas... e como tinha idosos esperando! Deus tem sido generoso com o povo brasileiro, estendendo nossa expectativa de vida apesar do péssimo sistema de saúde pública, da ineficácia de políticas de combate e prevenção da morte prematura por causa da violência no trânsito e do aumento do comércio das drogas, da falta de um sistema educacional e cultural que, considerando toda a diversidade, promova baseado nos direitos humanos nossa identidade como uma nação. 

Mas confesso que ao ver tantos idosos também senti uma enorme saudade de minha querida mãe, que trabalhou até o fim de sua vida. Resolvi, então, conversar com um senhor sentado em um pequeno muro ao lado de uma loja, colocando em prática um trabalho que solicitei aos meus alunos dos cursos de licenciatura em filosofia, matemática e geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, que foi o de entrevistarem duas pessoas com mais de 90 anos e perguntarem como era a educação quando crianças, jovens e adultos. As conclusões desse trabalho virão mais tarde em uma outra crônica.

Entre uma pergunta e outra na conversa com aquele senhor, um outro fato chamou minha atenção. Três pessoas (o motorista de uma lotação da zona rural, o filho e a mãe) tentavam junto a um senhor resolver a questão de como fazer para sacar o beneficio do pai, com mais de 90 anos, sentado no fundo do carro. Parei e observei, o primeiro dilema, qual o Banco? Não era aquele (que deixa todos vermelhos de raiva), era outro, que diziam ser do Brasil. Agora, segundo os bancos, para evitar fraudes, os idosos precisam vir até as agências. Entretanto, sem acessibilidade, homens e mulheres com dificuldades de locomoção, que mal se aguentam sentados, permanecem por horas em pé, aguardando o cumprimento das burocracias para serem atendidos. 

O Brasil está envelhecendo, a expectativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) é que, até 2025, o país seja o sexto no mundo em número de idosos, devendo atingir 32 milhões de pessoas. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2012, o Brasil dos mais de 201.032.714 vivendo no país, desses, 21 milhões de pessoas já estavam com idade igual ou superior a 60 anos. A expectativa de vida para quem nasceu em 2013 é viver, no minimo, 74,8 anos. As mulheres vivem mais do que os homens, e o índice de natalidade tem diminuído a cada ano. Seremos, em breve, um país jovem e cheio de idosos. 

A legislação brasileira garante, pelo menos no papel, que o idoso tem direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, ao respeito, à convivência familiar e comunitária, e à dignidade (princípio da pessoa humana), a) integridade física e psíquica; b) liberdade e igualdade; c) mínimo existencial. Mas, infelizmente, a realidade brasileira é cruel, e existe um número considerável dessa faixa da população que é analfabeta e, portanto, não consegue sequer acessar e compreender os instrumentos de cidadania adequados para poder exigir os seus direitos. 

Na rua, hoje, ficou evidente que a materialização da negação desses direitos começa pela forma de atendimento aos idosos: filas enormes, sem tempo para o atendimento; em pé, alguns sem alimentação adequada, pois saíram cedo de suas cidades e casas, esperam sua vez, pacientemente. Lá, nos bancos, pseudogerentes, jovens nem sempre sorridentes, demonstram pouca educação e compreensão dos limites que a idade traz no atendimento a esses idosos. A maioria dos funcionários demonstra cansaço de terem que repetir as mesmas coisas e cobram agilidade dos idosos, não enxergando as necessidades desses que, por horas, estão ali, em pé, sem um banheiro, sem água, sem um futuro. 

Esses jovens (e todos os outros que estão nas lojas, nos aeroportos, nas rodoviárias, nas igrejas etc) ainda não perceberam que serão os velhos de amanhã. Que serão eles, caso as mudanças não comecem agora, que estarão sofrendo as privações e as humilhações que a ausência de uma cultura nacional de valorização do ser humano tem provocado em todos os lugares. Uma política de direitos humanos que implique a construção do respeito e do diálogo entre as gerações como uma das condições de e para a construção de uma identidade nacional, de uma nação. 

Como seria bom se milhares de idoso(a)s, aposentados, segurados, na terceira ou melhor idade, de todo este imenso Brasil pudessem irradiar a alegria igual à de Belarmina Pio, prestes a completar 101 anos em maio, na capital da Bahia, que com toda sua lucidez lê a sua Bíblia diariamente e conta a admiração e o carinho das quatro gerações que gerou; que já não quer mais sair de seu apartamento, mas não sente cansaço da vida e gostaria que ela estivesse apenas começando para poder voltar a assar seus chimangos e biscoitos em um grande forno a lenha. Esse, sim, é um grande sonho para um ano novo e melhor do que todos os anos que já passaram. 

* Reginaldo de Souza Silva, professor e doutor, é coordenador do Núcleo de Estudos da Criança e do Adolescente (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). - reginaldoprof@yahoo.com.br

Tags: aberta, aposentado, Artigo, coluna, JB, Sociedade

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