Jornal do Brasil

Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Desemprego no Brasil real

José Matias-Pereira*

Os elevados índices de empregabilidade no Brasil contrastam com uma economia em queda. Fica em aberto uma questão bastante complexa: como explicar esse paradoxo? É possível que menos pessoas estejam buscando uma vaga, em decorrência de não precisar, ou porque desistiu de procurar uma colocação por desalento? Observa-se que esses dois fenômenos – que contribuem para reduzir a pressão sobre o mercado de trabalho, mesmo sem crescimento na oferta de vagas – estão presentes no contexto brasileiro.

Diante desse cenário contraditório na economia, com taxas de crescimento muito baixas e com um mercado de trabalho próximo do emprego, fica cada vez mais evidente que é preciso analisar e explicar melhor o que está ocorrendo no Brasil real. Os índices medidos nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, em novembro último, por exemplo, apontam uma taxa de desemprego de apenas 4,6% da população economicamente ativa (Pea), revelando uma situação atípica, considerando que a economia brasileira cresceu próximo de 2% nos últimos três anos.

A população desocupada em novembro passado somou 1,1 milhão de pessoas nas regiões metropolitanas pesquisadas, enquanto a ocupada atingiu 23,3 milhões de pessoas. No setor privado, o número de trabalhadores com carteira assinada chegou a 11,8 milhões, sem mostrar variação em relação a outubro. A redução da desocupação, que mostra uma queda em relação à taxa de 5,2% de outubro último é função do aumento da inatividade. Assim, não houve melhora no mercado do trabalho, mas decorrente do grande número de pessoas que deixaram de procurar emprego: 148 mil pessoas.

Quando feita a comparação entre novembro de 2012 e o mesmo mês de 2013, constata-se um total de 801 mil pessoas a mais—estão sem trabalhar ou desinteressadas em buscar uma vaga. É oportuno ressaltar que esse desinteresse pode ser explicado, em parte, pelo crescimento da renda, que em novembro se encontrava em R$1.965,20, o que pode estar contribuindo para que os jovens, idosos e  mulheres desistam de demandar o mercado de trabalho por uma vaga, para complementar os  rendimentos da família. 

É preciso destacar, também, que o resultado positivo do emprego formal, com base no Cadastro Geral de Empregos (Caged),  vem sendo mantido por setores que têm menor relação com a infraestrutura, ou seja, está havendo um aumento significativo de criação de vagas no comércio e nos serviços, que juntas tiveram um saldo de 150 mil empregos em novembro. A indústria de transformação, por sua vez, perdeu 34 mil postos de trabalho, seguido da agricultura com 33 mil postos a menos em novembro.

A análise dos dados do Caged revelam indícios de sérias distorções, evidenciando uma elevada rotatividade dos trabalhadores, ou seja, os empregados estão ficando por pouco tempo nas empresas. Isso indica que estão optando por serem demitidos para ter acesso a benefícios sociais. É importante destacar também nessa análise que o país possui um contingente superior a 19 milhões de jovens que não estudam nem trabalham (IBGE). Trata-se de um dado preocupante, pois representa cerca de 10% da população brasileira.

Diante dos aspectos assinalados pode-se argumentar, por fim, que a redução no nível de desemprego no Brasil não pode ser considerada de forma isolada. Esse índice se apresenta na atualidade como uma variável positiva, mas preocupante, pois caso a economia continue crescendo num ritmo muito baixo, esse fenômeno não irá se sustentar nos próximos anos. Nesse sentido, o cenário do mercado de trabalho no país merece mais atenção do que comemoração. 

*José Matias-Pereira, economista e advogado, é doutor em ciência política pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, e professor de administração pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília.

Tags: aberta, Artigo, coluna, emprego, JB, Sociedade

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