Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Prudência nas estradas e na vida

Ronilson de Souza Luiz *

Encontrar algumas metáforas para sinalizar caminhos, em momentos nebulosos, pode ajudar quando se trata de situações complexas, históricas e turbulentas, como há fortes indícios de que estamos passando. Comparo o cenário político, econômico e social em que vivemos aos desafios que enfrenta um motorista ao trafegar na neblina. São conhecidas as recomendações e as precauções para uma direção veicular mais segura em trechos sob neblina: reduzir a velocidade e aumentar a distância em relação ao carro da frente; acender os faróis baixos ou especiais e evitar ultrapassagens. 

Sem imagens nítidas precisamos frisar as diferenças entre fazer muito e fazer bem feito, quando atuamos em grandes escalas, pois, com as manifestações de junho último, constatamos, metaforicamente, áreas de névoa nos transportes, na saúde, na educação, nas comunicações e nas finanças.

Nesta cerração, crescem na imprensa escrita e televisiva articulistas, autoridades e políticos citando nominalmente e ofendendo seus desafetos; adversários passam a inimigos. Quando isto ocorre, todos perdemos pela falta de elegância e por darmos margem às múltiplas interpretações, produzindo violências gratuitas e nada edificantes. Se continuarmos exigindo maior velocidade de profissionais que dirigem com pouca visibilidade e pistas molhadas, aumentaremos os riscos de colisões e tragédias, quer em julgamentos para falarmos do Judiciário, quer em obras para citarmos o Executivo, quer em normas específicas que competem ao Legislativo.

Profissionais do ramo de informática dirão que a nação brasileira, ao menos parte significativa, está funcionando no “modo de segurança”. Outra preciosa metáfora, portanto, verifiquemos se as palhetas do limpador estão em bom estado. Aprender a dirigir na neblina requer capacidade técnica e perícia para encarar situações ambíguas, incertas e conflituosas. Se estivermos no meio do percurso, havemos de comemorar o que já vencemos e deixamos para trás. Devemos manter a concentração para concluir a travessia.

Os mais variados medos que sentimos têm ligação com a ideia de risco. Usar as marcações da pista ou as luzes traseiras do carro à frente para se guiar é o que podemos fazer até descobrirmos a que distância estamos de avistar novos e melhores horizontes. Aprender é, essencialmente, recriar conhecimento como ação, como atitude e compromisso ético “aos que virão depois de nós”, e o momento pede que se aprenda a dirigir no nevoeiro ou a funcionar no “modo de segurança”.

Líderes e servidores públicos devem identificar e satisfazer necessidades, nas quatro estações do ano e não apenas no inverno, visando resultados nas urnas da primavera, porque as pessoas querem muito mais atenção para o que dizem do que para o atendimento de suas reivindicações. Contudo, um policial rodoviário recomendaria, caso a neblina esteja muito espessa, pare o carro em um posto de serviços ou similar e espere a situação melhorar, independentemente do tempo de experiência do motorista.

*Ronilson de Souza Luiz, capitão da PM de São Paulo, é mestre e doutor em educação pela PUC/SP. -  profronilson@gmail.com

Tags: aberta, Artigo, coluna, JB, ronilson de souza luiz, Sociedade

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