Jornal do Brasil

Sábado, 19 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Este Natal

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Neste Natal de 2013 tenho vontade de deixar emergir minha pertença ancestral judia e perguntar ao pai de família: “Pai, por que esta noite é diferente de todas as noites?” E ouvir a resposta da Sinagoga quando celebrando a Páscoa —  Pessach, passagem —  recorda a libertação do cativeiro do Egito.  E também a da Igreja, recordando o nascimento d´Aquele de quem os cristãos do mundo inteiro celebram o nascimento.  

Neste Natal os sentimentos serão diferentes.  E por muitas razões.  Começamos o ano fazendo uma viagem sonhada e desejada há muito tempo.  Fomos à Terra Santa com um grupo inesquecível, guiados pelo amigo e irmão Luiz Paulo Horta e pelo irmão e companheiro de Jesus padre Paul Schweitzer.  Viagem inesquecível que faz com que de agora em diante nenhum Natal seja o mesmo, pois eu estive e pisei no solo de Nazaré, onde Maria recebeu a Anunciação do Anjo Gabriel; Estive em Belém e senti a presença do nascimento do Menino Yeoschua no estábulo da hospedaria; pois andei e pisei na mesma terra que Ele há mais de dois mil anos pisou com seus pés que caminhavam sem parar pregando a boa notícia do reino de Deus. 

A contemplação natalina este ano tem composição de lugar e cenário.  E por isso torna-se mais real.  E por isso mesmo faz aflorar e emergir a realidade com seu encanto tão doce como o Menino e ao mesmo tempo tão conflitivo como a humanidade que Ele escolheu assumir com sua Encarnação e Nascimento. Talvez por isso Natal seja uma festa onde as famílias se encontram e onde a convivência nem sempre é pacífica e harmônica. 

Pois o amor e a solidariedade que o Menino veio trazer não eliminam as diferenças, antes as expõem.  Com a luz e a crueza da Verdade onde não há lugar para a mentira e o engano. Por isso, para muitos o Natal é uma festa onde a dor não está ausente.  A dor da solidão, a dor do abandono, a dor do desengano, da decepção.  E também a dor da exclusão, da injustiça, da opressão.  As dores messiânicas pelas quais Jesus passou em sua vida são também experimentadas por nós em meio à suave alegria que o nascimento de uma criança sempre desperta e que os símbolos natalinos desejam reeditar e remarcar nesta festa.  

Neste Natal estaremos celebrando em nossa família a grande alegria da presença de um novo membro, a nenenzinha Maria Victoria.  Ao mesmo tempo uma sombra vai pairar sobre nós com a ausência de Lucas, o netinho francês que permaneceu na França consolando a avó de sua recente viuvez e o pai de um ano muito difícil.  Nós teremos entre nós a mãe de Lucas que também celebrará conosco a esperança que este ano que começa em uma semana seja melhor do que o que vamos deixando para trás.  E veremos no Natal esta esperança concretizada na presença do Menino que é uma vida que se inicia e promete luz e liberdade. 

Em nosso coração estará também o peso do vazio da dor da perda do irmão Luiz Paulo que após a viagem inesquecível para a Terra Santa partiu sem avisar para o encontro definitivo com Deus.  De lá, ele estará celebrando conosco, mas a falta que faz é grande demais para não doer, pelo menos neste primeiro Natal sem ele. 

A chegada do Messias que o povo de Israel vive como esperança e a Igreja como esperança realizada em Jesus Cristo é plenitude atravessada por provisoriedade.  É Transcendência atravessada por contingência. É Infinito atravessado por finitude.  É alegria não isenta de conflitos e tristezas.  

Bem diz Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais, ao propor a contemplação da Natividade: “ Ver as pessoas... ver nossa Senhora e José... e o Menino Jesus... advertir e contemplar o que falam... observar e considerar o que fazem, como é caminhar e trabalhar, para que o Senhor venha a nascer em suma pobreza e, ao cabo de tantos trabalhos de fome, de sede, de calor e de frio, de injrias e afrontas, para morrer na cruz; e tudo isto por mim... (114-116). 

Pois pouco ou nada têm em comum com o espírito do Natal o frenesi consumista e a euforia regada a álcool e comilança desmedida que se apossa de tantos durante estas festas.  Escasso paralelismo tem a sobriedade da hospedaria e do estábulo do nascimento com as mesas cheias de comida e os pinheiros cercados por infinidade de presentes. 

Neste Natal peço a graça de compreender interiormente que a alegria é diferente da euforia e que a justiça é seu componente essencial e constitutivo.  Peço o dom divino de aceitar as diferenças dos outros e acolhê-las em minha identidade.  E não temer nem hesitar frente aos conflitos que compõem inelutavelmente a construção do Reino de Deus.  FELIZ NATAL!

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br 

Tags: a graça, de compreender, interiormente, Natal, neste, peço

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