Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Sobre a poesia e o boxe

Ronilson de Souza Luiz*

Todos que se debruçam na tentativa de entender e explicar os momentos mágicos da vida encontrarão conforto na poesia. Para além e acima dos pós, pós-guerra, pós-crise, pós-maio/68, pós-atentados, pós isso e pós-aquilo; a poesia permanece. Resta-nos entender o porquê ou para quê? Para que alguém, em certa e pequena faixa de terra, ar ou mar, a qualquer momento, torça a curva da vida e a dirija para o improvável e o inesperado.

Explicar o porquê da poesia seria pedir que a existência entregasse à inteligência seus silêncios e mistérios. A pergunta ocorre para que os sujeitos, ao tentarem respondê-la, fabriquem sonhos e realidades e deixem para as novas gerações o legado de seus estilos.

Poesia para que se cruzem os rios, os mares, atravessem os céus e cheguem ao próximo e mudem o rumo da história, para os que leem e de quem escreve. A poesia urge para que alguns poucos homens e mulheres se arrisquem a colocar a mão na roda da história e imprimir-lhe movimento diverso. A poesia existe para que possamos acreditar, e acreditar é algo que requer coragem, força e, sobretudo, perseverança, que é amiga fiel da paciência. Acreditarmos que sempre é possível.

Quanto mais os tempos forem sombrios e incertos, tanto mais os poetas e as poetisas devem lembrar que Itaca, traduzido pelo falecido José Paulo Paes; não é apenas um nome de rua, na Zona Lleste da capital paulista. Para que os soldados e, modernamente, as mulheres em campo de batalha, no calor das trincheiras, nos horários de descanso ou de folga, realizem sua essência humana e escrevam ou digitem mensagens para alguém que poderá ler ou não. Não importa, o que está em jogo são as palavras, a escrita e a realização humana. Nas palavras do escritor português José Saramago: dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Poesia, para que as futuras gerações entendam o que fizeram de suas vidas pessoas como Carlos Drummond de Andrade, Augusto dos Anjos e Cecília Meirelles. Para que os sonetos não morram e para que a palavra amor continue sendo pronunciada, escrita e lida — interpretá-la nos escapa. Para que a letra de músicas como Canção da América, de Milton Nascimento, Mulheres de Atenas, de Chico Buarque, e Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, continuem sendo tocadas e cantadas não apenas em formaturas e solenidades, mas que ecoem nos silêncios de quem sonha.

Poesia para que antes que a luz se apegue, antes que o sol se ponha, todos saibam que haverá alguém de estar, haverá alguém de ficar, para que os outros venham, para que os outros fiquem. E saibam que a luz que levam para alguém ilumina-os também.

Para que se lembrem das palavras de Fernando Pessoa: segue os teus caminhos, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é a sombra de árvores alheias”.

Cada um de nós tem a sua vinha, que, sem que controlemos completamente, cresce sem parar —  é desta vinha que saem as poesias, portanto, por nada e nunca devemos trocá-la, vendê-la, barganhá-la.

Poesia para que certas coisas não deixem de ter sentido por si só — penso em lareira entre amigos, sorvete à tarde na praça, lua nova, o mistério do amanhecer. Tudo isso para que o silêncio tenha significado, para que a solidão seja respeitada, para que os escritos permaneçam em nossos corações.

Para que o nome Julieta não perca sua força, para que Luisa me dê sua mão, para que continuemos comemorando centenários relembrando a vida daquele grande poeta, para que o pão e o vinho continuem tendo significado. Para que Homero não seja apenas mais um nome bonitinho. Enfim, para que daqui a 50 ou 100 anos um pai ou uma mãe, em especial o primeiro, saiba explicar por que o jogo de peteca substituiu, nos Jogos Olímpicos, a luta de boxe. 

*Ronilson de Souza Luiz, capitão da PM, é mestre e doutor em educação pela PUC/SP, - profronilson@gmail.com

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