Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Natal de ontem e de hoje

Vitor Sapienza*

Outro dia, em uma reunião de amigos, o assunto político deu espaço a uma discussão sobre futebol. E a origem disso foi a exploração do esporte como meio de promoção de governantes, principalmente em nações do Terceiro Mundo. Bem sabemos que o Brasil e a Argentina  exploraram o futebol em duas copas do mundo, a de 1970 e a de 1978, quando os dois países sagraram-se campeões mundiais.  Hitler fez o mesmo, durante as Olimpíadas de 1938, mas saiu frustrado. Um negro americano jogou por terra as suas pretensões de provar ao mundo a soberania da raça ariana.

A nossa discussão foi associada ao hábito de presentearmos os nossos filhos, principalmente durante o Natal. Eu perguntei aos nossos amigos quantos deles haviam dado uma bola de presente aos filhos, no ltimo ano. E a resposta foi simples, apenas dois deles. Os demais haviam comprado patins, skates, computadores, celulares, ipads, tablets e até viagens.

Perguntados sobre a maneira como viam o nosso principal esporte, todos se manifestaram pessimistas, embora sonhassem com os filhos praticando o futebol e, quem sabe, vestindo a camisa dos grandes times do mundo. E ai apareceu a grande contradição: como sonhar com o filho jogando futebol, se não damos a ele a chance de um começo?

A pergunta vai além do futebol e chega às mudanças ocorridas no Natal, como um todo. E, quando chegamos ao Natal, percebemos o quanto mudamos, tanto na maneira de agir como de consumir e, consequentemente, presentear. A força do marketing torna os nossos jovens mais exigentes, pouco apegados às coisas como se elas fossem feitas para durar pouco ou, no máximo, até a próxima data a que fizerem jus a novo presente.

Despreza-se a caneta como se fosse descartável, o estojo, o fichário pelo simples fato de haver surgido um mais colorido; despreza-se o celular, simplesmente porque o amigo conseguiu um aparelho um pouco diferente, ou mais avançado. O vestuário cada vez mais despojado mostra o desapego para com o que chamamos de elegância e, quando menos esperamos, eis que aquela calça nova ou aquela camiseta foi rasgada para atender aos apelos da moda.

Vive-se o apelo do irreal, do contraditório, da contestação, da busca do  impacto como forma de marcar presença. Muitos dirão que isso faz parte da condição de ser jovem, um período em que quase tudo é permitido, e, se não o for, assim tentam fazer parecer, pelo menos para provocar a polêmica, a discussão com os mais velhos. Foi em uma  dessas discussões que o consumismo do Natal veio à baila, e todos se justificaram, principalmente os mais jovens.

O Natal, o seu simbolismo, o espírito religioso, nada disso foi citado. Apenas a festa, a comida, a bebida e os presentes. Em momento algum o aniversariante foi citado, nem o motivo da comemoração. E aí, os nossos janeiros acumulados nos remetem ao passado, quando éramos um pouco mais crentes, os nossos presentes mais simples e, em muitíssimos casos, limitados pela nossa condição de carentes.

Mas nem por isso podemos dizer que não éramos felizes. Sim, porque o conceito de felicidade é muito relativo. Muitas vezes, algo muito simples pode preencher os nossos anseios e alimentar as nossas ilusões. São elas que nos incentivam a ir à luta, nos empurram para as vitórias, que muitas vezes podem ser simples como calçado para o descalço, ou uma bola de borracha para a criança que nada tem. Coisas de pequeno custo, mas de grande importância para quem as recebeu.

Conheci uma senhora que levou bolas plásticas para as crianças que viviam em palafitas, na Região Norte do país. Perguntada onde as crianças jogariam futebol, ela não soube responder. Mas obteve a resposta  quando viu o sorriso das crianças que nadavam até o barco em que ela estava, e abraçavam as bolas como se fossem o maior  tesouro do mundo. E aí, sem querer, voltamos ao espírito natalino.  Ele está embutido na simplicidade do sorriso da criança atendida, na mão que pede e recebe, no abraço dado sem a preocupação com a reciprocidade, no aceno, no sorriso sincero, no aperto de mão, no gesto simples de grande significado: a presença do Menino Jesus, o aniversariante, que, infelizmente, anda um tanto esquecido nos nossos dias.

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, é economista e agente fiscal de rendas aposentado. - www.vitorsapienza.com.br

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